sábado, 22 de agosto de 2015

MEU FILHO SERÁ HETERO, HOMO OU BISSEXUAL?

Por Néa Tauil



Do ponto de vista da sexualidade, a orientação sexual é um dos aspectos mais polêmicos, pois além de ser considerada por muitas pessoas como doença ou opção, quando o objeto de amor e desejo sexual é diferente da heterossexualidade, ao mesmo tempo, é alvo de julgamentos rápidos, baseados apenas pela aparência. De fato, as disparidades sociais são inevitáveis, porém não justifica, por falta de conhecimento, considerar a orientação sexual diferente da heterossexual como doença ou opção e ainda pensar que é possível determinar a  orientação sexual dos outros com base em aparências.


Afinal, do que se trata orientação sexual? A orientação sexual é um dos aspectos da sexualidade  que aponta para o modo como as pessoas sentem atração física e/ ou afetiva por outras pessoas. Nota-se que  a atração não diz respeito apenas ao aspecto sexual, mas também envolve questões sentimentais, já que a sexualidade não está relacionada apenas ao coito, mas também ao afeto, autoestima, autoconfiança, respeito, saúde, etc. É por isso que o termo adequado para nos referir às categorias da orientação sexual é homoafetividade, heteroafetividade, biafetivo , ao invés de homossexualidade, heterossexualidade e  bissexualidade.

O fato é que a orientação sexual, além da heterossexual ( atração afetivo-sexual pelo sexo oposto) abrange outras categorias na expressão do desejo afetivo-sexual, como é o caso da homossexualidade ( atração afetivo-sexual pelo mesmo sexo), bissexualidade ( atração afetivo-sexual por pessoas de ambos os sexos, feminino e masculino). Podemos observar que a manifestação da sexualidade não é fixa e certamente  terá outros significados de acordo com as constantes evoluções das sociedades e das culturas, que interagem na construção da identidade e subjetividade individual. Inclusive, atualmente, alguns especialistas consideram como categorias da orientação sexual, a assexualidade e o pansexualismo. 

Na assexualidade, os indivíduos  não sentem atração sexual, seja pelo sexo oposto ou pelo sexo igual. Têm desejos por relacionamentos românticos, mas não querem que essas relações incluem atividade sexual. Já a pansexualidade,  é caracterizada pela atração sexual, romântica e/ou emocional, independentemente da identidade de gênero do outro. Inclui, portanto, pessoas que não se encaixam na binária de gênero homem/mulher. Seja como for, a verdade é que o objeto de amor e desejo sexual pode ser heterossexual, homossexual, bissexual e outros. 


Com base no que foi dito,  fica evidente que a orientação sexual não é uma escolha, ninguém decide ser heterossexual, homossexual ou bissexual, por isso que amar e desejar sexualmente outra pessoa, fugindo dos padrões de comportamento socialmente definidos para o homem e a mulher, não é algo que a pessoa escolhe, muito pelo contrário, quem é que em plena consciência iria optar em expressar a sua sexualidade de maneira diferente daquela que não preenche os requisitos pré-estabelecidos pela cultura a qual se está inserido? Dessa forma, o termo orientação sexual é considerado mais apropriado do que opção sexual ou preferência sexual, porque a opção indica que a pessoa teria escolhido a sua forma de desejo.  Por falta de conhecimento sobre sexualidade, muitos de nós colocamos opção sexual no lugar de orientação sexual, por isso,  podem até nos confundir, mas não nos dá o direito de tentar adivinhar se alguém dorme com homens ou com mulheres, mas mesmo assim, muitos não admitem a derrota em qualquer tentativa de prever a orientação sexual dos outros fazendo julgamentos rápidos com base em aparências. A realidade nos mostra que não podemos afirmar nada com base em aparências, especialmente sobre a orientação sexual dos outros

Não há como negar que até mesmo psicoterapeutas experientes se equivocam na tentativa de prever qual é a orientação sexual do paciente. É grande o número de pessoas que aderem ao estereótipo de que um homem com traços afeminados é gay e uma mulher masculinizada é lésbica. É bom destacar que, homens com orientação sexual heterossexual, podem estar identificados com os traços que caracterizam o gênero feminino, tornando-os afeminados,  mas eles se sentem masculino, desejam e amam mulheres. A recíproca também vale para o sexo feminino, ou seja, mulheres com orientação sexual heterossexual podem estar identificadas com os traços que caracterizam o gênero masculino, serem masculinizadas, não terem o corpo feminino perfeito, mas se sentirem mulher e desejar homens como objeto de amor e desejo sexual. O mesmo ocorre com homens e mulheres com orientação sexual homossexual. Isso significa que homens homossexuais podem estar identificados com traços que caracterizam o gênero masculino, serem másculos, viris, mas desejam se relacionar afetiva e sexualmente com outro homem. Com mulheres lésbicas é assim também. Sentem-se mulheres, comportam-se de maneira feminina, mas desejam se relacionar afetiva e sexualmente com outra mulher. 

O importante a registrar é que as pessoas podem ser ou se comportar  de diferentes maneiras, por isso mesmo devem ser respeitadas e não julgadas. Considere o seguinte exemplo, quando procuramos um profissional da área da saúde para nos ajudar a aliviar uma dor física ou psíquica, não perguntamos sobre sua orientação   sexual, porque quando a dor física ou psíquica surge, gerando sofrimento, não importa qual é a expressão da sexualidade do nosso médico, psicólogo, dentista, psiquiatra, nutricionista, fisioterapeuta, enfermeiro etc., o que importa nessa hora, é o restabelecimento da nossa saúde, e não o nosso preconceito. Podemos até ser homofóbicos e o nosso "doutor" pode ser um homossexual e nem cogitamos essa possibilidade porque o nosso "doutor" não apresenta traços afeminados.  O mesmo pode acontecer na igreja que frequentamos em busca de alívio e consolo.  Normalmente nem se questiona a orientação sexual do padre ou do pastor que tanto confiamos, mas as manchetes dos jornais mostram que eles também possuem sexualidade, portanto sentem atração física e/ ou afetiva por outras pessoas. A realidade é que preconceitos, estereótipos negativos e discriminação estão profundamente arraigados em nosso sistema de valores e padrões de comportamento e nem percebemos o quanto nos enganamos, achando que podemos diagnosticar a vida sexual da outra pessoa com base em aparências.

Contrariando o que muitos pensam, a orientação sexual não se define apenas por traços característicos dos aspectos biológicos. Ela deve ser pensada como o resultado de uma complexa interação de fatores biológicos, psicológicos, sociais e culturais. Os órgãos sexuais característicos de cada gênero não garante que iremos nos tornar psicologicamente meninas e mulheres, meninos e homens. O fato é que independente da presença dos órgãos sexuais masculinos ou femininos, o que vai determinar se a pessoa se sente homem ou mulher é o seu psiquismo e não a sua genitália. 

Depois de tudo que foi visto, pode-se constatar que a orientação sexual é uma realidade que precisa ser compreendida e aceita para que possamos deixar de nos enganar e julgar com base em aparências, acreditando que a única expressão da sexualidade que existe é a heterossexual e as outras formas de expressão são doenças. Na verdade, aqueles que não respeitam a diversidade na manifestação da sexualidade e ainda se acham no direito de condenar pessoas por causa de sua forma de viver ou de sua condição que difere da heterossexualidade, são pessoas em que suas mentes estão presas a um sistema de falsas crendices, preconceitos e tabus, pois é ignorância pensar que a heterossexualidade é a única manifestação do desejo afetivo-sexual, interpretando as demais manifestações como doenças e dignas de sanção moral. É importante dissociar a orientação sexual de doença, porque se o homossexual for considerado um doente pela forma como expressa a sua sexualidade, o heterossexual, o bissexual, etc também devem ser, já que todas fazem parte das categorias da orientação sexual e, como dito anteriormente, a orientação sexual é apenas o modo como as pessoas sentem atração física e/ou afetiva por outras  pessoas. Em última análise, como podemos observar, a orientação sexual exige determinado objeto para a sua plena satisfação sexual, romântica e/ou emocional, portanto o relacionamento heteroafetivo, homoafetivo, biafetivo, etc são apenas maneiras diferentes e não erradas de vivenciar a vida amorosa e sexual. Cabe, então, a cada um de nós refletir e questionar a própria sexualidade e não a dos outros, pois esse é o caminho para desconstrução de preconceitos, mitos e tabus que só servem para conduzir  à culpa, ao castigo, à expiação, às histórias de crime e dor. 


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domingo, 26 de julho de 2015

VIVER DE APARÊNCIAS PREJUDICA A SAÚDE

Por Néa Tauil

O relacionamento com base em aparências é uma realidade que atinge o dia a dia das relações, sejam pessoais, profissionais ou educacionais. Isso acontece porque somos rigidamente educados para estarmos sempre certos, nunca errar, manter uma imagem positiva, mostrar que somos bons, inteligentes, corajosos, hábeis, divertidos, capazes, obedientes, amorosos, etc. Como temos a necessidade desesperada de sermos aceitos, respeitados e, acima de tudo, de fazermos parte do nosso meio - consciente ou inconscientemente - vamos nos moldando pelas normas, adotando certas posturas e evitando determinados comportamentos, para agradar a família, amigos e instituições sociais, deixando nosso verdadeiro eu escondido atrás de máscaras.
processo de construção de máscara acontece durante o desenvolvimento infantil, pois nascemos inconclusos do ponto de vista emocional, cognitivo, físico e social. Após o nascimento, iremos precisar de alguém que cuide de nós, que nos dê apoio e suporte para aprender, para superar desafios que são apresentados a cada instante, como estímulos para continuar nosso desenvolvimento. Seja como for,  vamos amadurecendo, guiados pelos nossos pais ou cuidadores, que são nossos modelos e usam máscaras, conforme as normas da família e da sociedade. Assim, até chegarmos à vida adulta, passamos por um longo processo civilizatório, em que o aprendizado é intenso, contínuo, acontecendo a cada momento, nas trocas e no modo como somos estimulados na infância, dentro do nosso grupo familiar. Isso quer dizer que desde muito pequeno, fomos ensinados a repreender nossos sentimentos, nossa espontaneidade e a construir máscaras para nos escondermos atrás delas, prática essa que é repassada de geração em geração, através da família.

Nesse sentido, se vivêssemos em família e em sociedade, sem a necessidade de se esconder atrás de máscaras, não teríamos uma estrutura familiar e social doentia e perversa, inviabilizando interações autênticas e saudáveis. Mas, como as instituições sociais precisam dominar as massas para se manterem no poder, elas inventam mitos, mentiras, códigos morais com o propósito de amedrontar, manipular, subjugar e, consequentemente, moldar o comportamento dos indivíduos para melhor controlá-los. É fato que há normas que mantêm o bom andamento social, por isso, temos de cumpri-las, outras; porém, não têm o mínimo sentido, são de altíssimo potencial adoecedor, mas que  orientam modos de interagir, tornando as pessoas inseguras, desorientadas e preconceituosas, escondendo-se atrás de máscaras sociais, por não corresponderem às expectativas  da família e da sociedade em geral. Desse modo, o desequilíbrio familiar, que veio do sistema cultural, retorna para a sociedade, porque famílias desequilibradas produzirão pessoas desequilibradas, que mais tarde, terão as próprias famílias também desequilibradas interagindo socialmente, sendo guiadas não só pelo modelo ideal a ser atingido, mas também por uma gama de proibições que acabam dando origem a discriminações e preconceitos, como homofobia, racismo, obesofobia, xenofobia, psicofobia, gerontofobia, etc. causadores de sofrimento, adoecimento e morte
Não há como negar que a máscara social é uma forma de trapacear a realidade. O que muitos não sabem é que ao colocá-la, uma parte de nossa mente pode estar satisfeita, mas várias outras partes vão reagir a essa mentira, porque a mente conhece a sua verdadeira identidade. Não é por acaso que o índice de pessoas com queixa de depressão, ansiedade, compulsões, dependência química, estresse, doenças psicossomáticas e outras sobe a cada dia, pois mentir para si mesmo conduz ao adoecimento. Desse ponto de vista, podemos dizer que é inútil ficarmos esgotados por termos que cumprir tantas exigências e expectativas, escondendo-nos sob máscaras, ilusões, correndo angustiados atrás de modelos que nada têm a ver conosco, para sermos amados e aceitos. Na verdade, não é preciso ficar desempenhando papéis, ou querer ser alguém que não é, pois a melhor maneira para ser saudável e feliz é aprender a expressar o que realmente sente, dizer o que de fato se quer dizer, sem que a opinião dos outros tenha  que se sobrepor à nossa vontade. 





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quarta-feira, 24 de junho de 2015

ENTREVISTA PARA DOCUMENTÁRIO - ESPM-RS


Entrevista concedida ao Documentário ¨AS DIFERENTES FORMAS DE PRECONCEITO CONTRA A COMUNIDADE LGBT¨, autoria de Luiza Buzzacaro Barcellos e Camila Oliveira para a disciplina Rádio 2, do curso de Jornalismo, da Escola Superior de Propaganda e Marketing, de Porto Alegre - ESPM-RS.


Luiza Buzzacaro Barcellos - Que tipo de dificuldades psicológicas, pessoas que não estejam de acordo com uma lógica heteronormativa, podem passar para aceitarem sua orientação sexual?

Néa Tauil - A dificuldade em aceitar a orientação sexual diferente da heterossexual depende da cultura, sendo mais difícil em sociedades mais conservadoras e mais fácil em sociedades mais liberais. Logo em sociedades conservadoras quase a totalidade da comunidade LGBT ( lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transgêneros) sofre durante o processo de aceitação porque na lógica heteronormativa há uma gama de proibições que acabam dando origem a discriminações, preconceitos e, consequentemente, homofobia, causadores de sofrimento, adoecimento e morte. É fato que vivenciar tratamentos negativos da sociedade relaciona-se com um maior número de problemas psicológicos, pois crescer numa cultura que frequentemente transmite mitos e esteriótipos, por vezes muitos negativos, são assimilados por todos nós, e isso quando choca com a identidade homossexual, pode corromper fortemente o sentido de valor pessoal e de autoestima, por exemplo: ¨eu não presto enquanto homossexual¨, ¨não interesso a ninguém¨, ¨vou beber para esquecer¨, etc. Assim, essas atitudes e sentimentos negativos, internalizados no homossexual, podem estar relacionadas com depressão, alcoolismo, abuso de substância, ansiedade, distúrbios alimentares, ideias suicidas e suicídio. Mas não podemos generalizar, pois há muitas pessoas da comunidade LGBT que têm vidas extremamente felizes, saudáveis e produtivas. 

Luiza Buzzacaro Barcellos - Ser gay ou transexual é uma opção ou a pessoa nasce assim?

Néa Tauil - Não é uma opção e nem se nasce gay ou transexual. Ninguém decide ser heterossexual, homossexual, bissexual ou transexual. Amar e desejar outra pessoa fugindo dos padrões de comportamento socialmente definidos para o homem e a mulher, não é algo que a pessoa escolhe, muito pelo contrário, quem é que em plena consciência iria optar em expressar a sua sexualidade de maneira diferente daquela que não preenche os requisitos pré- estabelecidos pela cultura a qual se está inserido? O fato é que desde pequenos somos educados a seguir rigidamente certos padrões impostos pela sociedade no que diz respeito a nossa sexualidade. Ao nascer, somos registrados e recebemos uma certidão definitiva. Há uma divisão comportamental, da qual meninos devem agir de uma maneira e meninas de outra. Esse modelo de educação acaba semeando os primeiros frutos da heteronormatividade, que por sua vez acaba limitando a liberdade do outro de viver abertamente a sua sexualidade.

Luiza Buzzacaro Barcellos - Existem processos de descobrimento e aceitação ou isso é apenas um mito?

Néa Tauil - Sim, existe processo de descobrimento e aceitação e não é fácil, pois é cercado pelas muralhas do preconceito, do pecado, do medo, do achar que ser diferente não é certo. Apesar da experiência sexual ter significados diferentes para cada indivíduo, podemos dizer que o processo de descobrimento e aceitação envolve quatro momentos: a pessoa se ¨sente¨ diferente, começa a ¨dar sentido sexual¨a essa diferença, se ¨reconhece¨ como homossexual, e ¨aceita¨ esse modo de vida. Na minha opinião, precisamos preparar adultos para aceitar e/ou conviver com o ¨diferente¨, pois a diversidade sexual é positiva para a sociedade.

Luiza Buzzacaro Barcellos - Quais as diferenças dessas questões quando a pessoa é transexual?

Néa Tauil - Não vejo diferença com relação aos processos estigmatizantes e discriminatórios para a população LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transgêneros). Porém, destaco a existência de discriminação institucional em relação à empregabilidade do referido público, em razão da orientação sexual. Em especial, quando se trata dos que mudaram de sexo - os chamados transgêneros. Há muitas pessoas capazes de assumirem papeis importantes no mercado de trabalho, mas que, em razão de sua orientação sexual, não conseguem emprego. Muitas vezes, se conseguem, não têm a mesma oportunidade de ascensão na carreira.

Luiza Buzzacaro Barcellos - Quais são os tipos de danos psicológicos que as pessoas sofrem com a violência simbólica, ou seja, o preconceito diário que essas pessoas enfrentam (a comunidade LGBT em geral)?

Néa Tauil - É o que falei anteriormente, o baixo nível de autoestima é um dos danos psicológicos que acomete quem sofre ou sofreu com os processos estigmatizantes e discriminatórios. Esse tipo de violência é uma maneira brutal de atingir a autoestima do outro e contribui para a instalação do adoecimento, pois autoestima e saúde estão diretamente relacionadas. Geralmente, muitos pacientes chegam no consultório para tratar de algum transtorno decorrente desses processos estigmatizantes e discriminatórios, como transtorno de ansiedade, entre eles: (fobia social, transtorno obsessivo compulsivo, transtorno do pânico, transtorno de estresse pós-traumático, etc) depressão, problemas de relacionamento, sentimentos negativos, distúrbio alimentar, dificuldade de concentração, automutilação, tentativa de suicídio, etc.

Luiza Buzzacaro Barcellos  - Por que é tão difícil para a sociedade em geral respeitar e aceitar a sexualidade dos homossexuais, bissexuais e transexuais?

Néa Tauil - Porque em pleno século XXI, ainda existe, no Brasil, um alto índice de analfabetismo no que se refere à sexualidade, pois a educação sexual oferecida para a população, é bastante superficial, limitada, imbuída de preconceitos, mitos e tabus. No meu blog, há um artigo intitulado ¨Analfabetismo sexual¨, ele aborda esse assunto, mostrando que a educação sexual no Brasil precisa ser repensada, pois é ignorância pensar que a heterossexualidade é a única manifestação do desejo afetivo-sexual, interpretando as demais manifestações como doenças e dignas de sanção moral. Também realizei uma pesquisa que foi publicada na Revista PSIQUE, intitulada ¨A Abordagem da sexualidade na Prática Psicoterápica¨, mostrando que distorções, mitos, preconceitos, causados principalmente por falta de conhecimento, pode prejudicar a atuação do profissional da saúde para abordar, examinar e lidar com a sexualidade do paciente. Na verdade, o conhecimento mais profundo de mitos, tabus e da realidade acerca de nossa própria sexualidade pode contribuir para a diminuição de posturas inadequadas diante do tema.

Luiza Buzzacaro Barcellos - Há algum fator presente na infância ou na adolescência, por exemplo, que influencie a orientação sexual do indivíduo?

Néa Tauil - Sim, há muitos fatores que influenciam a orientação sexual do indivíduo. Na identificação do sexo ao nascer, só se considera a genitália externa (macho ou fêmea). Contrariando o que muitos pensam, a orientação sexual não se define apenas por traços característicos dos aspectos biológicos, pois ela é o modo como as pessoas sentem atração física e/ou afetiva por outras pessoas. A orientação sexual deve ser pensada como resultado de uma complexa interação de fatores biológicos, psicológicos, sociais e culturais. Por isso, os órgãos sexuais  característicos de cada gênero não garante que iremos nos tornar psicologicamente meninas e mulheres, meninos e homens. O fato é que independente da presença dos órgãos sexuais masculinos ou femininos, o que vai determinar se a pessoa se sente homem ou mulher é o seu psiquismo, e não a sua genitália.

Luiza Buzzacaro Barcellos - Eventualmente, existem preconceitos dentro da própria comunidade LGBT. Por que isso acontece?

Néa Tauil - Sim, existe. De acordo com a cultura da qual estamos inseridos, em proporções maiores ou menores, todos nós, durante nosso desenvolvimento infantil, aprendemos a acreditar em mitos e esteriótipos que são repassados de geração em geração. Penso que essa é a razão pela qual a humanidade é cheia de preconceitos e a comunidade LGBT é uma grande massa que atua, consome, pensa, trabalha e que não é diferente de nenhum outro cidadão. Logo, no meio LGBT há muitas pessoas preconceituosas que super valorizam alguns esteriótipos e outras não. Por exemplo: Se você é gay, você tem que ser másculo. Se for lésbica, você tem que ser feminina. Se você tem essa característica, é respeitado, desejado, além de uma maior facilidade de ter amigos. Entretanto, se for o gay afeminado e se a lésbica for máscula, a rejeição já começa no próprio meio.Claro que um grupo que sofre tanto com o preconceito deveria ser mais tolerante e menos ¨rotulista¨, mas como disse anteriormente, independente da orientação sexual, a humanidade é cheia de preconceitos. 










quinta-feira, 21 de maio de 2015

A FAMÍLIA PODE SER AMIGA OU INIMIGA

Por Néa Tauil

Ao contrário do que se pode pensar, o ambiente familiar nem sempre é um local harmonioso, afetivo, seguro, confiante e protetivo, pois a prática de violência (seja, física, sexual ou psicológica), contra crianças, por parte do pai, da mãe ou cuidadores, acontece diariamente em muitos lares. 


Para melhor compreensão desses três tipos de abusos, faz-se necessário esclarecer o que vem a ser cada um deles. Resumidamente, começaremos pelo abuso psicológico, que é um tipo de violência praticada, principalmente, contra crianças. Essa forma de violência se manifesta através de xingamento, desvalorização, humilhação, ameaça, hostilização, desrespeito, ridicularização, indiferença, discriminação, rejeição, críticas, culpabilização, etc. Já o abuso físico envolve os danos no corpo causados por murros, pontapés, queimaduras, apertões, beliscões, espancamento, ou outros tipos de ações agressivas contra a criança. Quanto ao sexual, compreende a violação dos direitos sexuais, que se traduz pelo abuso e/ou exploração do corpo e da sexualidade da criança, ao envolver e despertar meninas e meninos para o sexo precocemente, de maneira deturpada e traumática.

Pode-se afirmar que qualquer tipo de abuso, na infância, exerce um impacto negativo sobre a criança. Os efeitos dessas experiências violentas e traumáticas podem manifestar-se de várias formas e em qualquer idade. Sendo que em alguns casos, os danos físicos e psicológicos podem durar por toda vida da pessoa. Isso evidencia que uma criança não resolve, conscientemente, que irá crescer e ser um delinquente (que lesa outras pessoas), um pedófilo, um dependente químico descontrolado e autodestrutivo, uma vítima que se deixa abusar pelos outros, um assassino em massa, uma prostituta ou uma pessoa perturbada por transtornos de ansiedade, depressão, impulsividade, culpa, insegurança, vergonha, pensamentos suicida, dificuldade de socialização, etc.

É indiscutível que a responsabilidade pela educação da criança é dos pais ou pessoas responsáveis, bem como a definição de limites e toda a orientação para a formação do caráter e o aprendizado sobre interação social. Felizmente, a sociedade vem discutindo a forma como esses limites são estabelecidos, já que a criança vai absorver aquilo que é transmitido através do comportamento, dos sentimentos e atitudes dos pais, no dia a dia, para depois repetir na vida adulta e ainda transmitir para futuras gerações. Muito já se foi dito sobre o fato de os pais serem os modelos para os filhos adolescentes, porém, investigações mais atuais confirmam que os pais são modelos para os filhos, desde o momento do nascimento. Sabe-se que os primeiros canais que as crianças têm para aprender é a observação, elas observam cuidadosamente o que os adultos fazem e essa aprendizagem por imitação (baseada na conexão social com outro) começa praticamente ao nascer.

Na realidade, o tipo de educação familiar que uma pessoa recebe, na infância, é fator determinante no comportamento e, consequentemente, na qualidade de vida dela, quando adulta. De fato, uma criança que nasce, cresce e desenvolve-se num ambiente onde ela é respeitada, tratada com amor, consideração e orientação honesta para viver no mundo, tem tendência em sentir prazer na vida e, não a necessidade de matar, enganar, mentir, ferir a si mesma e os outros, simplesmente porque não terá como tarefa inconsciente reprimir experiências de crueldade. Porém, uma criança tratada com agressão, castigo, humilhação, manipulação, negligência das suas necessidades, que foi enganada, explorada, inclusive sexualmente, etc. terá como tarefa inconsciente reprimir as experiências traumáticas geradas pelos abusos, que embora permaneçam inconscientes, vão encontrar expressão em seus atos destrutivos contra outras pessoas ou contra a si mesma.
Algumas evidências mostram que a maior parte das pessoas não têm consciência do que lhes foi feito na infância, além disso não sabem que são continuamente afetadas na vida adulta pelas experiências vivenciadas, principalmente na infância. As experiências, tanto de ternura como de crueldade vividas na relação com mãe, pai ou pessoas responsáveis por nossa educação, deixam gravações psíquicas e emocionais registradas para sempre em nosso inconsciente. Esses registros são as matrizes que irão marcar nosso mundo emocional e determinar nossas relações pessoais, casamentos, educação dos filhos e nosso futuro como um todo, pois influenciam nossa forma de pensar, de sentir e de agir, porém, escapam da consciência, ou melhor, não teremos consciência disso na vida adulta.

Depois do que foi visto, pode-se constatar que as experiências traumáticas vividas na infância, embora permaneçam inconscientes, mostram a sua influência na idade adulta. Portanto, não podemos continuar sendo perturbados pelo passado infantil deixando as experiências traumáticas enterradas na mente inconsciente. O que fazer? Uma ação possível é a busca de tratamento psicológico, pois para tomar consciência dos abusos e dar sentido a essas experiências é importante falar e ser ouvido por outra pessoa. Além disso, para rever as condições do ambiente onde cresceu, repensar os modelos parentais e como exerciam suas funções, a forma como foi educado, as crenças em que acreditou, reviver e dar-se conta das emoções e dos sentimentos que foram negados e rejeitados, enfim, reelaborar as experiências traumáticas e reorganizar o mundo interno só é possível com a presença do outro - psicólogo ou psicanalista - que possibilitará o processo terapêutico.


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terça-feira, 3 de março de 2015

A INFÂNCIA AFETA A VIDA ADULTA?

Por Néa Tauil



Todos desejam uma vida plena, com saúde, prosperidade, relacionamentos satisfatórios, autoestima elevada, trabalhos gratificantes, enfim, uma vida com mais momentos de alegria. Isso é perfeitamente possível, desde que se tenha uma mente livre, flexível, e não presa a um sistema de crenças mentirosas que impedem a pessoa de assumir o que realmente é, o que deseja e, sobretudo, o que sente.

O contrário do que se pensa, muitas pessoas vivem infelizes, amarradas a esses tipos de crenças limitantes. E por que isso acontece? A resposta para essa interrogação é a seguinte: nós, seres humanos, nascemos inconclusos, nosso desenvolvimento se dá através do que  aprendemos, pelos modelos observados e por todas as experiências vivenciadas dia a dia, principalmente na infância.

Em proporções maiores ou menores, todos nós, durante nosso desenvolvimento infantil, aprendemos a acreditar em crenças falsas, que são repassadas de geração em geração. E como se dá esse aprendizado? Resumidamente, isso acontece da seguinte forma: por sermos muito pequenos, e ainda não termos formadas uma série de aptidões emocionais, cognitivas, físicas e sociais para discernir mentiras e verdades acerca do que nos é repassado pelos nossos pais ou cuidadores, aceitamos tudo como verdade absoluta, que por sua vez, ficam registradas em nosso inconsciente, alterando a percepção de nós mesmos. Isso quer dizer que as crenças em que acreditamos não passam de opiniões de outras pessoas que aceitamos e incorporamos sem sequer serem questionadas. Porém, se não trouxermos, para o nível da consciência, essas crenças falsas, viveremos regidos por elas na vida adulta.

Afinal, que tipo de crenças falsas aprendemos? São muitas e; em diversas áreas de nossa vida, entre elas podemos citar: " tenho que ser perfeito para ter valor", " tenho que agradar os outros", ¨dinheiro é causador de sofrimento", "preciso da aprovação das pessoas" , " não consigo fazer nada sozinha" ,  " trabalho só tem valor se for duro", " eu sou fraco, o outro é forte", " meu valor é determinado pelo que possuo ", " posso controlar tudo que existe fora de mim", " está errado amar a mim mesma", " expressar minha verdadeira sexualidade é perigoso", " tenho que ser superior a todos", "devo fazer sempre mais e melhor para ser perfeito", "lazer é perda de tempo", não posso cometer erros para manter a imagem positiva", "nunca devo me arriscar", "tenho que esconder o que sinto", "devo ser sempre obediente e nunca questionar", "amor me deixa vulnerável", " é errado errar".

Como se vê, eu poderia facilmente relacionar centenas dessas crenças mentirosas que mantêm a nossa mente arraigada na negatividade, emperrando nossa vida. Isso quer dizer, que em essência, as crenças mentirosas limitam e prejudicam o viver de uma vida plena, feliz e bem sucedida, pois são elas que roubam a dignidade e o respeito por nós, levando-nos a ter vergonha do nosso ser como um todo, justamente porque esses tipos de crenças não permitem a expressão de nossa personalidade com seus pontos fortes e fracos. Para sentir a totalidade de nosso ser e reconhecer o que significa ser humano, precisamos integrar dentro de nós os pontos fortes e os fracos. Agora, como tudo na vida é treino, aprendizagem, nós somos treinados na infância a mostrarmos apenas os pontos fortes da nossa personalidade. Isso explica porque na vida adulta, passamos a nos esconder atrás de uma infinidade de máscaras para sermos aceitos e amados pela nossa família, amigos ou outras pessoas importantes para nós, pois o condicionamento a crenças mentirosas nos fez acreditar que devemos nos apresentarmos aos outros, apenas com nossos pontos fortes, já os fracos devem ser escondidos, pois se mostrarmos o lado falho, diferente e imperfeito da nossa personalidade de algum modo, seremos rejeitados, marginalizados e rotulados. No entanto, o que muitos não sabem é que quando negamos, reprimimos, ou nos recusamos a reconhecer esse lado da nossa personalidade devido às crenças mentirosas que carregamos sem questionar, ficamos vulneráveis para que se manifeste de maneira autodestrutiva, prejudicando nossa vida, pois o que reprimimos por medo, vergonha ou culpa são como bombas-relógios, esperando para explodir, ou seja, inconscientemente, nós mesmos iremos criar oportunidades para nos ferir, quando queremos parecer o que não somos.

Praticamente todos os dias, no consultório, eu ajudo pacientes a se conscientizarem e se libertarem de suas crenças mentirosas, ajudando reaver as partes de si que foram negadas, reprimidas para que possam redirecionar o seu poder anteriormente destrutivo para uma força que pode beneficiar suas vidas. Isso significa que não precisamos continuar a contar mentiras para nós mesmos, mas para isso temos que verificar quais as crenças que nos impedem de ter êxito nas diversas áreas de nossa vida, para que possamos fazer uma higiene psíquica, isto é, jogar fora o que não serve mais para nós.




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segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

ALFABETIZAÇÃO SEXUAL


Por Néa Tauil


Não se pode negar que, em pleno século XXI, ainda existe, no Brasil, um alto índice de analfabetismo no que se refere à sexualidade, pois a educação sexual, oferecida para a população, é bastante superficial, limitada, imbuída de preconceitos, mitos e tabus. Isso é tão verdade que o Ministério da Saúde divulgou, as estatísticas, no dia primeiro de dezembro - Dia Mundial de Luta contra a Aids - mostrando que o HIV avançou mais de 50% entre a população jovem brasileira.


A resposta para essas interrogações é apenas uma: no Brasil, não existe de fato, uma educação para a sexualidade. Mas o que vem a ser Educação para Sexualidade? É uma educação que vai muito além da instrução do uso de preservativo. Ela discute e dá atenção às questões referente às variantes do comportamento sexual, à diversidade nas práticas sexuais, à identidade de gênero, enfim, às manifestações singulares da sexualidade, direito à não-violência e à igualdade para todos, independente do gênero e da orientação sexual. A Educação para a Sexualidade é cientificamente fundamentada, baseada em valores universais de respeito e direitos humanos, reconhecendo e ensinando que a sexualidade afeta a todos, produzindo efeitos importantes do ponto de vista biológico, psicológico e social, já que não está relacionada apenas com o coito, mas também com autoestima, autoconfiança, respeito, afeto, igualdade de direitos, influenciando pensamentos e sentimentos e, consequentemente a saúde física e mental. Dessa forma, ela jamais se comprometerá com normatização ou manipulação da culpa sexual.


É por isso que a Educação para a Sexualidade precisa ocupar um lugar privilegiado nas famílias, nas escolas, nas igrejas, nos hospitais, nos consultórios particulares e planos governamentais, pois só assim, o quadro estatístico que se tem hoje na sociedade brasileira no que se refere à sexualidade humana poderá ser modificado de forma positiva.


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quinta-feira, 6 de novembro de 2014

PALMADA PSICOLÓGICA CONJUGAL

Por Néa Tauil

O que nos leva a mantermos relacionamentos? Acredito que um motivo importante é o desafio do crescimento e da evolução das pessoas como seres humanos, já que o encontro amoroso não acontece por acaso, pois quando duas pessoas se juntam é porque suas dificuldades são semelhantes, mesmo com histórias diferentes.

Quando o ambiente, onde o casal vive, é acolhedor, o convívio torna-se uma fonte de estímulo e aprendizado, porque é possível admitir as próprias dores e dificuldades, expressar emoções, cometer erros, assumir riscos, experimentar novas ideias, revisitar conceitos, receber e dar amor e carinho. Mas quando há afastamento afetivo entre o casal e o ambiente é ameaçador ou amedrontador, a aprendizagem, o crescimento, a troca, não acontecem.

Atualmente, é comum ouvir falar em violência conjugal, bem diferente de antigamente, em que as agressões físicas e psicológicas aconteciam de forma silenciosa, em seus ambientes domiciliares. Hoje, temos até leis para esse tipo de violência. 

São muitos os fatores que podem deflagrar tanto manifestação de palmada física quanto psicológica ou ambas. Nesse texto, pretendo focar na palmada psicológica entre casais, por ser brutal e nociva, mas também por não ser reconhecida e nem vista como é o caso da palmada física. E sabe porque não é vista? Porque os hematomas doem na alma. O que chama a atenção é que esse tipo de manipulação emocional parece ser imperceptível nas relações, pois até a própria vítima demora a perceber e compreender os efeitos destrutivos da palmada psicológica conjugal. 

Afinal, do que se trata a palmada psicológica conjugal? São agressões feitas através do uso de palavras que desqualificam e desmerecem as potencialidades do parceiro ou da parceira, que criam constrangimento, sentimento de impotência, de fracasso, enfim, que atingem o autoconceito, a autoimagem e a autoestima do outro, desqualificando-o enquanto ser humano. Ou seja, a brutalidade não está na força dos braços, mas sim na força das palavras. 

Mas por que a palmada psicológica é nociva? Porque o estresse vivenciado pelas vítimas da palmada psicológica ocasiona baixa imunidade fisiológica, delimitando todo o organismo. E ao contrário do que se supõe, o processo de adoecer causado pela palmada psicológica não se manifesta apenas por meio de sintomas físicos ou orgânicos, na verdade envolve nossa vida como um todo.

O que fazer para superar o ciclo vicioso no uso da palmada psicológica conjugal? Uma ação possível é a busca de tratamento psicológico para que o casal possa emergir para uma nova concepção saudável de relacionamento, que inclui aprender a criar espaços para o diálogo, já que a incomunicabilidade é um dos fatores que podem induzir à violência, despertar para a capacidade de simpatia e empatia, de respeito, de cuidado com o parceiro ou a parceira, enfim, repensar papéis e posturas na relação conjugal, pois o amor que promove a cura é um processo de aprendizagem e crescimento.


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