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quarta-feira, 24 de junho de 2015

ENTREVISTA PARA DOCUMENTÁRIO - ESPM-RS


Entrevista concedida ao Documentário ¨AS DIFERENTES FORMAS DE PRECONCEITO CONTRA A COMUNIDADE LGBT¨, autoria de Luiza Buzzacaro Barcellos e Camila Oliveira para a disciplina Rádio 2, do curso de Jornalismo, da Escola Superior de Propaganda e Marketing, de Porto Alegre - ESPM-RS.


Luiza Buzzacaro Barcellos - Que tipo de dificuldades psicológicas, pessoas que não estejam de acordo com uma lógica heteronormativa, podem passar para aceitarem sua orientação sexual?

Néa Tauil - A dificuldade em aceitar a orientação sexual diferente da heterossexual depende da cultura, sendo mais difícil em sociedades mais conservadoras e mais fácil em sociedades mais liberais. Logo em sociedades conservadoras quase a totalidade da comunidade LGBT ( lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transgêneros) sofre durante o processo de aceitação porque na lógica heteronormativa há uma gama de proibições que acabam dando origem a discriminações, preconceitos e, consequentemente, homofobia, causadores de sofrimento, adoecimento e morte. É fato que vivenciar tratamentos negativos da sociedade relaciona-se com um maior número de problemas psicológicos, pois crescer numa cultura que frequentemente transmite mitos e esteriótipos, por vezes muitos negativos, são assimilados por todos nós, e isso quando choca com a identidade homossexual, pode corromper fortemente o sentido de valor pessoal e de autoestima, por exemplo: ¨eu não presto enquanto homossexual¨, ¨não interesso a ninguém¨, ¨vou beber para esquecer¨, etc. Assim, essas atitudes e sentimentos negativos, internalizados no homossexual, podem estar relacionadas com depressão, alcoolismo, abuso de substância, ansiedade, distúrbios alimentares, ideias suicidas e suicídio. Mas não podemos generalizar, pois há muitas pessoas da comunidade LGBT que têm vidas extremamente felizes, saudáveis e produtivas. 

Luiza Buzzacaro Barcellos - Ser gay ou transexual é uma opção ou a pessoa nasce assim?

Néa Tauil - Não é uma opção e nem se nasce gay ou transexual. Ninguém decide ser heterossexual, homossexual, bissexual ou transexual. Amar e desejar outra pessoa fugindo dos padrões de comportamento socialmente definidos para o homem e a mulher, não é algo que a pessoa escolhe, muito pelo contrário, quem é que em plena consciência iria optar em expressar a sua sexualidade de maneira diferente daquela que não preenche os requisitos pré- estabelecidos pela cultura a qual se está inserido? O fato é que desde pequenos somos educados a seguir rigidamente certos padrões impostos pela sociedade no que diz respeito a nossa sexualidade. Ao nascer, somos registrados e recebemos uma certidão definitiva. Há uma divisão comportamental, da qual meninos devem agir de uma maneira e meninas de outra. Esse modelo de educação acaba semeando os primeiros frutos da heteronormatividade, que por sua vez acaba limitando a liberdade do outro de viver abertamente a sua sexualidade.

Luiza Buzzacaro Barcellos - Existem processos de descobrimento e aceitação ou isso é apenas um mito?

Néa Tauil - Sim, existe processo de descobrimento e aceitação e não é fácil, pois é cercado pelas muralhas do preconceito, do pecado, do medo, do achar que ser diferente não é certo. Apesar da experiência sexual ter significados diferentes para cada indivíduo, podemos dizer que o processo de descobrimento e aceitação envolve quatro momentos: a pessoa se ¨sente¨ diferente, começa a ¨dar sentido sexual¨a essa diferença, se ¨reconhece¨ como homossexual, e ¨aceita¨ esse modo de vida. Na minha opinião, precisamos preparar adultos para aceitar e/ou conviver com o ¨diferente¨, pois a diversidade sexual é positiva para a sociedade.

Luiza Buzzacaro Barcellos - Quais as diferenças dessas questões quando a pessoa é transexual?

Néa Tauil - Não vejo diferença com relação aos processos estigmatizantes e discriminatórios para a população LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transgêneros). Porém, destaco a existência de discriminação institucional em relação à empregabilidade do referido público, em razão da orientação sexual. Em especial, quando se trata dos que mudaram de sexo - os chamados transgêneros. Há muitas pessoas capazes de assumirem papeis importantes no mercado de trabalho, mas que, em razão de sua orientação sexual, não conseguem emprego. Muitas vezes, se conseguem, não têm a mesma oportunidade de ascensão na carreira.

Luiza Buzzacaro Barcellos - Quais são os tipos de danos psicológicos que as pessoas sofrem com a violência simbólica, ou seja, o preconceito diário que essas pessoas enfrentam (a comunidade LGBT em geral)?

Néa Tauil - É o que falei anteriormente, o baixo nível de autoestima é um dos danos psicológicos que acomete quem sofre ou sofreu com os processos estigmatizantes e discriminatórios. Esse tipo de violência é uma maneira brutal de atingir a autoestima do outro e contribui para a instalação do adoecimento, pois autoestima e saúde estão diretamente relacionadas. Geralmente, muitos pacientes chegam no consultório para tratar de algum transtorno decorrente desses processos estigmatizantes e discriminatórios, como transtorno de ansiedade, entre eles: (fobia social, transtorno obsessivo compulsivo, transtorno do pânico, transtorno de estresse pós-traumático, etc) depressão, problemas de relacionamento, sentimentos negativos, distúrbio alimentar, dificuldade de concentração, automutilação, tentativa de suicídio, etc.

Luiza Buzzacaro Barcellos  - Por que é tão difícil para a sociedade em geral respeitar e aceitar a sexualidade dos homossexuais, bissexuais e transexuais?

Néa Tauil - Porque em pleno século XXI, ainda existe, no Brasil, um alto índice de analfabetismo no que se refere à sexualidade, pois a educação sexual oferecida para a população, é bastante superficial, limitada, imbuída de preconceitos, mitos e tabus. No meu blog, há um artigo intitulado ¨Analfabetismo sexual¨, ele aborda esse assunto, mostrando que a educação sexual no Brasil precisa ser repensada, pois é ignorância pensar que a heterossexualidade é a única manifestação do desejo afetivo-sexual, interpretando as demais manifestações como doenças e dignas de sanção moral. Também realizei uma pesquisa que foi publicada na Revista PSIQUE, intitulada ¨A Abordagem da sexualidade na Prática Psicoterápica¨, mostrando que distorções, mitos, preconceitos, causados principalmente por falta de conhecimento, pode prejudicar a atuação do profissional da saúde para abordar, examinar e lidar com a sexualidade do paciente. Na verdade, o conhecimento mais profundo de mitos, tabus e da realidade acerca de nossa própria sexualidade pode contribuir para a diminuição de posturas inadequadas diante do tema.

Luiza Buzzacaro Barcellos - Há algum fator presente na infância ou na adolescência, por exemplo, que influencie a orientação sexual do indivíduo?

Néa Tauil - Sim, há muitos fatores que influenciam a orientação sexual do indivíduo. Na identificação do sexo ao nascer, só se considera a genitália externa (macho ou fêmea). Contrariando o que muitos pensam, a orientação sexual não se define apenas por traços característicos dos aspectos biológicos, pois ela é o modo como as pessoas sentem atração física e/ou afetiva por outras pessoas. A orientação sexual deve ser pensada como resultado de uma complexa interação de fatores biológicos, psicológicos, sociais e culturais. Por isso, os órgãos sexuais  característicos de cada gênero não garante que iremos nos tornar psicologicamente meninas e mulheres, meninos e homens. O fato é que independente da presença dos órgãos sexuais masculinos ou femininos, o que vai determinar se a pessoa se sente homem ou mulher é o seu psiquismo, e não a sua genitália.

Luiza Buzzacaro Barcellos - Eventualmente, existem preconceitos dentro da própria comunidade LGBT. Por que isso acontece?

Néa Tauil - Sim, existe. De acordo com a cultura da qual estamos inseridos, em proporções maiores ou menores, todos nós, durante nosso desenvolvimento infantil, aprendemos a acreditar em mitos e esteriótipos que são repassados de geração em geração. Penso que essa é a razão pela qual a humanidade é cheia de preconceitos e a comunidade LGBT é uma grande massa que atua, consome, pensa, trabalha e que não é diferente de nenhum outro cidadão. Logo, no meio LGBT há muitas pessoas preconceituosas que super valorizam alguns esteriótipos e outras não. Por exemplo: Se você é gay, você tem que ser másculo. Se for lésbica, você tem que ser feminina. Se você tem essa característica, é respeitado, desejado, além de uma maior facilidade de ter amigos. Entretanto, se for o gay afeminado e se a lésbica for máscula, a rejeição já começa no próprio meio.Claro que um grupo que sofre tanto com o preconceito deveria ser mais tolerante e menos ¨rotulista¨, mas como disse anteriormente, independente da orientação sexual, a humanidade é cheia de preconceitos.