sábado, 26 de dezembro de 2015

MENOS REMÉDIO, MAIS PSICOTERAPIA

Por Néa Tauil



Não se pode negar que a vida moderna tem sido tratada com comprimidos e, cada vez mais, pessoas buscam desmedidamente receitas rápidas para seus problemas não resolvidos, como se fosse possível resolver com comprimidos todos os problemas vivenciais e emocionais. Ou seja, estamos vivendo na era da patologização da vida. Por exemplo: a tristeza  virou uma doença, sentir dor pela morte de alguém querido passou a ser patológico, bem como tremer quando se fala em público pela primeira vez, etc. Não é por acaso que o Brasil é um dos países em que essa patologização da vida tem sido mais intensa e extensa, despontando nas estatísticas como um dos maiores consumidores de substâncias psicoativas legais. 

O que alguns profissionais da saúde mental pensam sobre o assunto?

Allen Frances, em seu livro Saving Normal (inédito no Brasil), faz uma autocrítica e questiona o fato de a principal referência acadêmica da psiquiatria contribuir para a crescente medicalização da vida.
Em uma entrevista concedida ao jornal El País diz:¨a cada semana recebo e-mails de pais cujos filhos foram diagnosticados com um transtorno mental e estão desesperados por causa do preconceito que esse rótulo acarreta. É muito fácil fazer um diagnóstico errôneo, mas muito difícil reverter os danos que isso causa. Tanto no social como pelos efeitos adversos que o tratamento pode ter. Felizmente, está crescendo uma corrente crítica em relação a essas práticas. O próximo passo é conscientizar as pessoas de que remédio demais faz mal para a saúde. Também diz que graças àqueles que lhes permitiram fazer publicidade de seus produtos, os laboratórios estão enganando o público, fazendo acreditar que os problemas se resolvem com comprimidos. Mas não é assim. Os fármacos são necessários e muito úteis  em transtornos mentais severos e persistentes, que provocam uma grande incapacidade. Mas não ajudam nos problemas cotidianos, pelo contrário, o excesso de medicação causa mais danos que benefícios. Não existe tratamento mágico contra o mal-estar. Estamos transformando os problemas diários em transtornos mentais e tratando-os com comprimidos. Parte do problema é que o sistema de diagnóstico é muito frouxo. Mas o principal problema é que a indústria farmacêutica vende doenças e tenta convencer indivíduos de que precisam de remédios. Eles gastam bilhões de dólares em publicidade enganosa para vender doenças psiquiátricas e empurrar medicamentos". Vale lembrar que Allen Frances foi dirigente durante anos do Manual Diagnóstico e Estatístico (DSM), documento que define e descreve as diferentes doenças mentais.
                                                                                            
Já o médico psiquiatra e psicanlista Jorge Forbes, em seu artigo intitulado: ¨ Está todo mundo deprimido¨, diz que ¨se em uma reunião pudéssemos fazer raios- X das bolsas e dos bolsos, encontraríamos, entre os gêneros de primeira portabilidade, comprimidos de antidepressivos. O que antes tinha emprego discreto, hoje virou conversa de salão. Discute-se qual medicamento cada um toma, como reagiu, há quanto tempo, se o genérico substitui bem o oficial e por aí vai. E se a fala corre solta, sem o comedimento anterior, é porque uma forte propaganda convenceu muita gente de que a depressão é uma doença como outra qualquer, como quebrar o braço em um acidente ou contrair malária. Essa propaganda de fortes coloridos interesseiros da indústria farmacêutica, associada a uma medicina que se orgulha em ser baseada em evidências – aquela em que o médico não dá um passo sem pedir um monte de exames – veiculou a ideia de que você não tem nada a ver com a sua depressão, que os sentimentos são cientificamente mensuráveis e, em decorrência, controláveis".

Nessa linha de pensamento, a psicóloga e psicanalista  Alice Miller, em seu livro A verdade Liberta, pg.10, "diz que infelizmente muitos médicos não entendem a linguagem dos sintomas dos seus pacientes, pois não conseguem lidar abertamente com as próprias emoções e raramente tem acesso a própria infância. Essa falta de entendimento gera um sentimento de impotência que precisa ser repelido o mais depressa possível. Como repelimos esses sentimentos? Entre outras formas, quando usamos meios para calar esses sintomas, para não nos sentirmos impotentes, mas poderosos. E como calamos os sintomas? Existem muitos meios, sobretudo remédios".

Diante dessa realidade, constata-se que  a busca desenfreada pela medicalização se dá principalmente pela falta de esclarecimento para a população sobre o tratamento psicológico, por isso a procura por  um médico clínico ou especialista é muito maior do que a busca por psicólogos. Disto se conclui, que por desconhecimento do que seja psicoterapia, há muita gente sendo medicada com ansiolíticos, antidepressivos, remédio para dormir e outros, sem um resultado eficaz. 

É importante saber que psicoterapia é um tratamento psicológico em que a pessoa tem a chance de entrar em contato com o que realmente lhe está fazendo mal, podendo se re-situar  dentro de si mesma, encurtando a distância de seu próprio eu, desenvolvendo e explorando suas potencialidades criativas, intelectuais e emocionais, lidando e superando traumas infantis, abrindo-se para uma nova dimensão humana e trilhando confiante o caminho da maturidade através do resgate da autoestima. Isso significa que  a pessoa pode se libertar do sofrimento, ao invés  de permanecer sofrendo, apesar de medicada. Como vimos, não existe pílula mágica que resolva problemas vivenciais e emocionais. Então, é aconselhável que se tenha uma atitude mais precavida para que não se torne vítima de remédios receitados inadequadamente.




REFERÊNCIAS

- Jornal EL PAÍS - Sociedade 
Entrevista Allen Frances 
¨Transformamos problemas cotidianos em transtornos mentais¨
M.P.O. 27 de setembro de 2014

- www.jorgeforbes.com.br - artigos
¨Está todo mundo deprimido¨
26 de outubro de 2013

- Miller, Alice. A Verdade Liberta. São Paulo:Martins Fontes. 2004



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domingo, 6 de dezembro de 2015

CRIANÇAS PRECISAM SER LEVADAS A SÉRIO

Por Néa Tauil


Provavelmente, devido à minha sensibilização com o fato de  crianças serem ensinadas a dar as costas ao que acontece dentro delas, esse vídeo que está circulando na rede social, onde  a mãe se diverte com o sofrimento da filha, tocou-me imensamente. 

As cenas exibidas evidenciam  o quanto a vida emocional de uma criança é desconsiderada e o que vivencia parece não ter importância. Também fica evidente que tanto aquele que cuida como aquele que está sendo cuidado está exposto a uma formação cultural infectada pelo vírus chamado IES ( Invalidando Emoções e Sentimentos). Esse vírus é transmitido de geração em geração, sem que as pessoas percebam o seu potencial de gravidade.

O que pode acontecer com as crianças que são contaminados por esse vírus? Como suas emoções e sentimentos são invalidados, isso as impede de compreenderem  quais de suas reais necessidades não estão sendo atendidas, pois as emoções e os sentimentos são a maneira como nos percebemos. São nossa reação ao mundo que nos circunda. Quando a vida interior dessas crianças não é refletida de volta para elas, através de pais ou pessoas compreensíveis, que dão nomes aos seus sentimentos e ouvem-nas com o devido respeito, elas podem se fechar em si mesmas e agir de um modo que pareça irracional e impossível de se lidar, tornando-as alienadas dos seus próprios sentimentos.  Por exemplo: no vídeo, as emoções e sentimentos da criança estão sendo invalidados e ainda são motivo de riso, revelando que seus recados verbais ou não - verbais não estão sendo entendidos pela mãe, que inevitavelmente está contaminada pelo vírus IES (Invalidando Emoções e Sentimentos). Nota-se que quanto mais a criança chora e demonstra, em seu discurso, sentimentos de impotência, ciúme, solidão, medo, mais a mãe ri de sua dor. É importante nos colocarmos no lugar das crianças, elas têm sentimentos iguais ou mais intensos do que os nossos. Muitas vezes, nos esquecemos disso e pensamos que não ter o poder nem a maturidade da idade adulta é sinônimo de não entender o que se passa à volta. Mas, a verdade é que  ensinar uma criança a lidar com suas emoções e sentimentos é contribuir para que ela se sinta uma pessoa capaz e autônoma, o que refletirá positivamente em sua autoestima. 

É fato que educar é um trabalho difícil, mas enquanto o vírus IES (Invalidando Emoções e Sentimentos) for ignorado, como se as emoções e sentimentos não fizessem parte da condição humana, especialmente das crianças, continuaremos a ter uma sociedade de pessoas com sérios problemas emocionais, pois a linguagem dos sentimentos é a maneira pela qual nos relacionamos conosco mesmos e,  se não podermos nos comunicar conosco mesmos, simplesmente não poderemos nos comunicar com os outros.




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quinta-feira, 26 de novembro de 2015

QUANDO DIZER ¨NÃO¨

Por Néa Tauil

As pessoas incapazes de dizer ¨não¨, que ¨engolem tudo¨ e não colocam limites às solicitações externas podem estar alimentando, além de sua própria baixo autoestima, a falta de autoconfiança, pois demonstram que não conseguem valorizar suas necessidades e direitos. 

No fundo, quem desconhece as suas necessidades é porque não está dando a devida atenção a si mesmo. Ou seja, está mais preocupado com as necessidades alheias do que com as suas. Veja na história ¨O Trator e o Pântano¨, a importância de saber quando dizer ¨não¨.

Numa floresta mora um pântano que está sempre deprimido, triste e infeliz da vida. Um belo dia, um trator novinho em folha sai da linha de montagem e vai passear na floresta onde mora o pântano. O trator assobia e canta feliz por estar vivo quando chega perto do pântano.
     - Bom dia! - diz o trator - Não é um dia maravilhoso?
     - Ah! - responde o pântano. - O que há de tão maravilhoso? Estou preso aqui na parte mais escura da floresta, onde o sol nunca aparece. Estou cansado de ser pântano.
    - Gostaria de ajudá-lo - diz o inocente trator. - Posso fazer alguma coisa? - O pântano pensa por alguns momentos.
    - Bom, se quer ajudar de verdade, acho que poderia jogar um pouco de terra em mim. Assim deixarei de ser um pântano. 
     - Que ótima ideia! - exclama o trator. - Fico feliz em ajudá-lo a deixar de ser um pântano!
E o entusiasmado trator começa a cavar e a jogar terra no pântano. Passam-se algumas horas e nada acontece. O pântano começa a reclamar. 
     - Acho que você está lento demais, por isso não vejo diferença.
     - Está bem - responde o trator. - Vou cavar mais depressa. 
O dia passa e o tratorzinho começa a ficar cansado. O pântano continua do mesmo jeito que estava de manhã. E fica bravo com o trator.
     - Se você gostasse de mim de verdade, faria isso melhor.
Acho que não se importa comigo.
Até então, o trator passara o dia inteiro ajudando o pântano e se sente na obrigação de continuar. Assim, esforça-se mais apesar de estar cansado e fraco. Cava durante a noite toda, enquanto o pântano dorme, e continua na manhã seguinte debaixo das reclamações do ingrato. O trator literalmente morre de tanto cavar e começa a afundar no pântano. Não existem provas de que ele realmente esteve lá. O pântano continua pântano e espera que outro trator venha salvá-lo de seu destino.
O que o trator poderia ter feito? Se tivesse autoestima, se soubesse dizer ¨não¨ e se cuidar, poderia ter perguntado ao pântano o que estaria disposto a fazer para mudar. Poderia ter passado pelo pântano e percebido que ajudá-lo era uma armadilha perigosa. Poderia ter oferecido ajuda temporária ao pântano, etc. Em todos os casos, se o trator tivesse autoestima não daria sua vida pelo pântano. Para mudar esse final trágico para um desfecho feliz, tanto o trator quanto o pântano precisariam cuidar de si mesmos. Os pântanos do mundo devem aprender a fazer as coisas por si próprios e os tratores a deixar que os pântanos façam isso.




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Fonte: História retirada do livro O terapeuta de Bolso- Susanna McMahon - Editora Gente


domingo, 25 de outubro de 2015

MEDO: DA PROTEÇÃO À DOENÇA

Por Néa Tauil

O medo é uma emoção necessária para a  proteção e sobrevivência,  mas  pode se tornar um distúrbio quando  passa a ser um medo persistente e exagerado, capaz de impedir  a pessoa de vivenciar relacionamentos amorosos e profissionais gratificantes. Bem como, manter relações sociais com prazer.

É fato que crescemos com medo e muitos desses medos são aprendidos  pelos modelos observados e por todas as experiências vivenciadas dia a dia, principalmente na infância. Uma criança que cresceu em um ambiente familiar, onde o clima emocional era de constante medo, devido à ameaça de violência física, de tortura psicológica, de abandono, de monstros escondidos debaixo da cama e outros, certamente irá aprender a ser medrosa. O medo constante desestabiliza  o ambiente de apoio necessário para que a criança possa crescer, explorar e aprender, deixando-a com um persistente sentimento de apreensão, uma ansiedade geral, que pode prejudicar de modo fundamental a sua maneira de se relacionar com as pessoas e de enfrentar situações novas. As evidências mostram que se o medo não for vencido, pode durar a vida toda. Isso significa que a criança medrosa pode se tornar um adulto com predisposição para os mais variados tipos de transtorno  de ansiedade, que  variam em grau, intensidade, e na forma como se apresentam. 

Em suas variadas manifestações, o medo está associado  tanto à questão biológica quanto à psicológica - que na maioria das vezes - as pessoas não sabem diferenciar. O medo biológico é instintivo e tem a ver com  a preservação física. Tem função mental normal e útil relacionada diretamente com precaução - que é um estado de proteção que tomamos quando existe um perigo real. Exemplo disso é quando a pessoa, ao  atravessar a rua, olha para os dois lados, por medo de ser atropelada. Já o medo psicológico tem a ver com o imaginário, é produto de nossos pensamentos, e passa a ser algo negativo porque a tendência é pensar de maneira catastrófica. A situação de perigo é acionada pela imaginação, diz  respeito à preservação e proteção de nossa imagem, de nosso ideal de personalidade, das crenças que temos a nosso respeito. Por exemplo: evitar situações cotidianas nas quais pode se sentir constrangida, como comer, falar, ou escrever na frente de outras pessoas. Ou seja, o contato com outras pessoas é visto como ameaça, pois pode causar alguma situação de humilhação, a pessoa imagina que pode fazer algo que seja considerado ridículo ou errado, etc.


Como se pode perceber,imaginação ativa o medo, gerando na pessoa uma sensação permanente de que algo desconfortável ou mesmo  catastrófico pode acontecer. Com isso, na tentativa de fugir das ameaças imaginárias, constrói a seu redor uma série de defesas e as usa para se proteger daquilo que não consegue suportar, mas o uso excessivo de defesas pode ser nocivo, principalmente porque o cérebro não diferencia o perigo real do imaginárioIsso quer dizer que a reação do corpo diante do perigo real ou imaginário é a mesma? Sim, diante de um perigo real ou imaginário, o corpo entra em estado de alerta, aumentando o nível de adrenalina no sangue, nossos sentidos ficam aguçados, a musculatura modifica-se, as glândulas funcionam  diferentemente, o sistema nervoso fica mais acelerado e o organismo inteiro se prepara para enfrentar ou fugir da situação de perigo. Acontece  que no medo real, após passar o perigo, o corpo retorna  ao seu estado normal, mas no medo psicológico, mantém-se o estado de alerta constante, com isso, chegando ao estresse (que é um estado proveniente de um excesso de defesa inútil), pois o perigo é imaginado e vai durar enquanto persistir as crenças de uma pessoa, consideradas por ela absolutas e verdadeiras. 


Como já disse anteriormente, o medo é uma reação de grande valia no sentido da proteção, mas quando disfuncional, pode comprometer a qualidade de vida. Então, para libertar-se das amarras  do medo, é preciso questionar as crenças, confrontar a voz interior que ameaça, descobrir  a origem dos medos, para trabalhar neles. Enfim, buscar se conhecer e, para isso, é essencial reconhecer o que está acontecendo e buscar ajuda especializada.





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domingo, 27 de setembro de 2015

BULLYING NA PRÓPRIA FAMÍLIA

Por Néa Tauil

Muito se tem falado em Bullying atualmente, principalmente, no que diz respeito a sua incidência nas escolas. Já no que se refere à sua ocorrência, na família, ainda é  pouco discutido.  

É inegável que  o Bullying - por parte dos pais contra  crianças e adolescentes - é uma prática bastante comum, embora não se fale tanto nisso. Mas é um assunto que merece atenção especial, porque as evidências mostram que a educação familiar recebida por uma pessoa, na infância, é fator determinante no comportamento e, consequentemente, na qualidade de vida dela, quando adulta. 

Por definiçāo, Bullying é  um anglicismo utilizado para descrever atos de violência física ( danos no corpo causados por murros, pontapés, queimaduras, apertões, beliscões,  espancamento, etc.) ou psicológica ( xingamento, desvalorização, humilhação, ameaça, hostilização, desrespeito, ridicularização, indiferença, discriminação, rejeição, críticas, culpabilização, etc.), intencionais e repetidos, praticados por um indivíduo ou grupo de indivíduos, causando dor e angústia e sendo executadas dentro de uma relação desigual de poder. Especialistas em violência apontam o Bullying como uma das formas de abuso que mais cresce no mundo, uma vez que pode acontecer em qualquer contexto social, como escolas, universidades, em local de trabalho, famílias, etc.

É possível afirmar que o Bullying é recriado a cada geração e, infelizmente, muitas crianças /adolescentes, ao invés, de serem protegidos, respeitados e tratados com amor pelos seus pais ou cuidadores, são repetidamente ridicularizados, simplesmente, por realizarem tarefas com lentidão, por estarem acima do peso, por rirem alto ou brincarem demais, por terem pouco cabelo, não comerem todos os legumes do prato. Caçoam quando demonstram carência, medo ou chora. Repreendem com gritos, quando perguntam demais, ou colocam a mão nas partes íntimas, não escovam os dentes com eficiência, etc. Espancam quando não obedecem, deixam cair e quebrar um pote de açúcar, derrubam sorvete no banco do carro, ou puxam brutalmente pelos braços quando atrasam. Corrigem ou exortam os filhos em público, porque acreditam que irão aprender mais rápido a lição do que é certo ou errado, bem e mal, dentre outros.Como se vê, poderia facilmente relacionar centenas de situações agressivas que instalam uma particular ou generalizada sensação de incompetência pessoal a quem escuta apelidos, chacotas, "tiradas de sarro" puxões, pontapés, espancamentos, etc. 

Mas quais são os efeitos do Bullying?
Os efeitos podem manifestar-se de várias formas, pois a criança /adolescente que sofre  Bullying para que se comporte de uma determinada maneira, tende a responder ao cenário de violência em que vive,  buscando fontes de satisfação e prazer compensatórios, substituindo o afeto por comida, por jogos, por drogas, sexo compulsivo,  etc. Podendo também criar estratégias, como: passar a evitar toda e qualquer situação que possa acarretar uma agressão, esconder seus sentimentos, desviar-se de relacionamentos, se isolar, se autopunir. Pode se tornar uma pessoa vitimada em todos os relacionamentos que estabelece, com medo de ser sempre agredida, fazendo de tudo para agradar ao outro ou até mesmo repetindo o padrão de se submeter a agressões, como também podendo se tornar agressora, etc. O Bullying é uma forma de abuso que atinge o autoconceito, a autoimagem e a autoestima de uma pessoa, cuja incidência pode minar a autonomia, a iniciativa,  a coragem e a segurança, sendo que em alguns casos, os danos físicos e psicológicos podem durar por toda vida

Com frequência, pessoas chegam ao consultório com um sentimento desagradável sobre si mesma, uma noção generalizada de falta de valor pessoal, desconhecendo o seu próprio potencial e domínio  para sobrepor qualquer  erro ou fracasso, carregando na vida adulta a crença dolorosa de que é errada, inadequada, que não é apta, vivendo paralisada por medo de ser ridicularizada, além de ser uma presa fácil de ser manipulada. No decorrer do processo terapêutico, percebe- se que a causa foi o Bullying vivido na família. Também é frequente  receber pacientes para tratar de algum transtorno decorrente do Bullying familiar, como fobia social, transtorno de ansiedade, transtorno obsessivo compulsivo e transtorno do pânico, transtornos alimentares, problemas de relacionamento e até mesmo agressividade, sentimentos negativos, automutilação, dependência química, depressão,  estresse, tentativa de suicídio e outros.

Depois do que foi visto, é possível constatar  que as ocorrências do Bullying, na maioria das vezes, acontecem inicialmente na própria família. E como se pode perceber, essa prática de violência facilita o processo de adoecimento, além de dificultar o convívio familiar e, consequentemente, em sociedade. Por isso, esse conhecimento interessa a cada um de nós, independente do que façamos e, se for bastante disseminado, poderá conduzir a mudanças fundamentais em nossa sociedade e, acima de tudo, conseguir interromper a escalada cega e "legitimada" do Bullying como forma de educar.

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sábado, 22 de agosto de 2015

MEU FILHO SERÁ HETERO, HOMO OU BISSEXUAL?

Por Néa Tauil



Do ponto de vista da sexualidade, a orientação sexual é um dos aspectos mais polêmicos, pois além de ser considerada por muitas pessoas como doença ou opção, quando o objeto de amor e desejo sexual é diferente da heterossexualidade, ao mesmo tempo, é alvo de julgamentos rápidos, baseados apenas pela aparência. De fato, as disparidades sociais são inevitáveis, porém não justifica, por falta de conhecimento, considerar a orientação sexual diferente da heterossexual como doença ou opção e ainda pensar que é possível determinar a  orientação sexual dos outros com base em aparências.


Afinal, do que se trata orientação sexual? A orientação sexual é um dos aspectos da sexualidade  que aponta para o modo como as pessoas sentem atração física e/ ou afetiva por outras pessoas. Nota-se que  a atração não diz respeito apenas ao aspecto sexual, mas também envolve questões sentimentais, já que a sexualidade não está relacionada apenas ao coito, mas também ao afeto, autoestima, autoconfiança, respeito, saúde, etc. É por isso que o termo adequado para nos referir às categorias da orientação sexual é homoafetividade, heteroafetividade, biafetivo , ao invés de homossexualidade, heterossexualidade e  bissexualidade.

O fato é que a orientação sexual, além da heterossexual ( atração afetivo-sexual pelo sexo oposto) abrange outras categorias na expressão do desejo afetivo-sexual, como é o caso da homossexualidade ( atração afetivo-sexual pelo mesmo sexo), bissexualidade ( atração afetivo-sexual por pessoas de ambos os sexos, feminino e masculino). Podemos observar que a manifestação da sexualidade não é fixa e certamente  terá outros significados de acordo com as constantes evoluções das sociedades e das culturas, que interagem na construção da identidade e subjetividade individual. Inclusive, atualmente, alguns especialistas consideram como categorias da orientação sexual, a assexualidade e o pansexualismo. 

Na assexualidade, os indivíduos  não sentem atração sexual, seja pelo sexo oposto ou pelo sexo igual. Têm desejos por relacionamentos românticos, mas não querem que essas relações incluem atividade sexual. Já a pansexualidade,  é caracterizada pela atração sexual, romântica e/ou emocional, independentemente da identidade de gênero do outro. Inclui, portanto, pessoas que não se encaixam na binária de gênero homem/mulher. Seja como for, a verdade é que o objeto de amor e desejo sexual pode ser heterossexual, homossexual, bissexual e outros. 


Com base no que foi dito,  fica evidente que a orientação sexual não é uma escolha, ninguém decide ser heterossexual, homossexual ou bissexual, por isso que amar e desejar sexualmente outra pessoa, fugindo dos padrões de comportamento socialmente definidos para o homem e a mulher, não é algo que a pessoa escolhe, muito pelo contrário, quem é que em plena consciência iria optar em expressar a sua sexualidade de maneira diferente daquela que não preenche os requisitos pré-estabelecidos pela cultura a qual se está inserido? Dessa forma, o termo orientação sexual é considerado mais apropriado do que opção sexual ou preferência sexual, porque a opção indica que a pessoa teria escolhido a sua forma de desejo.  Por falta de conhecimento sobre sexualidade, muitos de nós colocamos opção sexual no lugar de orientação sexual, por isso,  podem até nos confundir, mas não nos dá o direito de tentar adivinhar se alguém dorme com homens ou com mulheres, mas mesmo assim, muitos não admitem a derrota em qualquer tentativa de prever a orientação sexual dos outros fazendo julgamentos rápidos com base em aparências. A realidade nos mostra que não podemos afirmar nada com base em aparências, especialmente sobre a orientação sexual dos outros

Não há como negar que até mesmo psicoterapeutas experientes se equivocam na tentativa de prever qual é a orientação sexual do paciente. É grande o número de pessoas que aderem ao estereótipo de que um homem com traços afeminados é gay e uma mulher masculinizada é lésbica. É bom destacar que, homens com orientação sexual heterossexual, podem estar identificados com os traços que caracterizam o gênero feminino, tornando-os afeminados,  mas eles se sentem masculino, desejam e amam mulheres. A recíproca também vale para o sexo feminino, ou seja, mulheres com orientação sexual heterossexual podem estar identificadas com os traços que caracterizam o gênero masculino, serem masculinizadas, não terem o corpo feminino perfeito, mas se sentirem mulher e desejar homens como objeto de amor e desejo sexual. O mesmo ocorre com homens e mulheres com orientação sexual homossexual. Isso significa que homens homossexuais podem estar identificados com traços que caracterizam o gênero masculino, serem másculos, viris, mas desejam se relacionar afetiva e sexualmente com outro homem. Com mulheres lésbicas é assim também. Sentem-se mulheres, comportam-se de maneira feminina, mas desejam se relacionar afetiva e sexualmente com outra mulher. 

O importante a registrar é que as pessoas podem ser ou se comportar  de diferentes maneiras, por isso mesmo devem ser respeitadas e não julgadas. Considere o seguinte exemplo, quando procuramos um profissional da área da saúde para nos ajudar a aliviar uma dor física ou psíquica, não perguntamos sobre sua orientação   sexual, porque quando a dor física ou psíquica surge, gerando sofrimento, não importa qual é a expressão da sexualidade do nosso médico, psicólogo, dentista, psiquiatra, nutricionista, fisioterapeuta, enfermeiro etc., o que importa nessa hora, é o restabelecimento da nossa saúde, e não o nosso preconceito. Podemos até ser homofóbicos e o nosso "doutor" pode ser um homossexual e nem cogitamos essa possibilidade porque o nosso "doutor" não apresenta traços afeminados.  O mesmo pode acontecer na igreja que frequentamos em busca de alívio e consolo.  Normalmente nem se questiona a orientação sexual do padre ou do pastor que tanto confiamos, mas as manchetes dos jornais mostram que eles também possuem sexualidade, portanto sentem atração física e/ ou afetiva por outras pessoas. A realidade é que preconceitos, estereótipos negativos e discriminação estão profundamente arraigados em nosso sistema de valores e padrões de comportamento e nem percebemos o quanto nos enganamos, achando que podemos diagnosticar a vida sexual da outra pessoa com base em aparências.

Contrariando o que muitos pensam, a orientação sexual não se define apenas por traços característicos dos aspectos biológicos. Ela deve ser pensada como o resultado de uma complexa interação de fatores biológicos, psicológicos, sociais e culturais. Os órgãos sexuais característicos de cada gênero não garante que iremos nos tornar psicologicamente meninas e mulheres, meninos e homens. O fato é que independente da presença dos órgãos sexuais masculinos ou femininos, o que vai determinar se a pessoa se sente homem ou mulher é o seu psiquismo e não a sua genitália. 

Depois de tudo que foi visto, pode-se constatar que a orientação sexual é uma realidade que precisa ser compreendida e aceita para que possamos deixar de nos enganar e julgar com base em aparências, acreditando que a única expressão da sexualidade que existe é a heterossexual e as outras formas de expressão são doenças. Na verdade, aqueles que não respeitam a diversidade na manifestação da sexualidade e ainda se acham no direito de condenar pessoas por causa de sua forma de viver ou de sua condição que difere da heterossexualidade, são pessoas em que suas mentes estão presas a um sistema de falsas crendices, preconceitos e tabus, pois é ignorância pensar que a heterossexualidade é a única manifestação do desejo afetivo-sexual, interpretando as demais manifestações como doenças e dignas de sanção moral. É importante dissociar a orientação sexual de doença, porque se o homossexual for considerado um doente pela forma como expressa a sua sexualidade, o heterossexual, o bissexual, etc também devem ser, já que todas fazem parte das categorias da orientação sexual e, como dito anteriormente, a orientação sexual é apenas o modo como as pessoas sentem atração física e/ou afetiva por outras  pessoas. Em última análise, como podemos observar, a orientação sexual exige determinado objeto para a sua plena satisfação sexual, romântica e/ou emocional, portanto o relacionamento heteroafetivo, homoafetivo, biafetivo, etc são apenas maneiras diferentes e não erradas de vivenciar a vida amorosa e sexual. Cabe, então, a cada um de nós refletir e questionar a própria sexualidade e não a dos outros, pois esse é o caminho para desconstrução de preconceitos, mitos e tabus que só servem para conduzir  à culpa, ao castigo, à expiação, às histórias de crime e dor. 


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domingo, 26 de julho de 2015

VIVER DE APARÊNCIAS PREJUDICA A SAÚDE

Por Néa Tauil

O relacionamento com base em aparências é uma realidade que atinge o dia a dia das relações, sejam pessoais, profissionais ou educacionais. Isso acontece porque somos rigidamente educados para estarmos sempre certos, nunca errar, manter uma imagem positiva, mostrar que somos bons, inteligentes, corajosos, hábeis, divertidos, capazes, obedientes, amorosos, etc. Como temos a necessidade desesperada de sermos aceitos, respeitados e, acima de tudo, de fazermos parte do nosso meio - consciente ou inconscientemente - vamos nos moldando pelas normas, adotando certas posturas e evitando determinados comportamentos, para agradar a família, amigos e instituições sociais, deixando nosso verdadeiro eu escondido atrás de máscaras.
processo de construção de máscara acontece durante o desenvolvimento infantil, pois nascemos inconclusos do ponto de vista emocional, cognitivo, físico e social. Após o nascimento, iremos precisar de alguém que cuide de nós, que nos dê apoio e suporte para aprender, para superar desafios que são apresentados a cada instante, como estímulos para continuar nosso desenvolvimento. Seja como for,  vamos amadurecendo, guiados pelos nossos pais ou cuidadores, que são nossos modelos e usam máscaras, conforme as normas da família e da sociedade. Assim, até chegarmos à vida adulta, passamos por um longo processo civilizatório, em que o aprendizado é intenso, contínuo, acontecendo a cada momento, nas trocas e no modo como somos estimulados na infância, dentro do nosso grupo familiar. Isso quer dizer que desde muito pequeno, fomos ensinados a repreender nossos sentimentos, nossa espontaneidade e a construir máscaras para nos escondermos atrás delas, prática essa que é repassada de geração em geração, através da família.

Nesse sentido, se vivêssemos em família e em sociedade, sem a necessidade de se esconder atrás de máscaras, não teríamos uma estrutura familiar e social doentia e perversa, inviabilizando interações autênticas e saudáveis. Mas, como as instituições sociais precisam dominar as massas para se manterem no poder, elas inventam mitos, mentiras, códigos morais com o propósito de amedrontar, manipular, subjugar e, consequentemente, moldar o comportamento dos indivíduos para melhor controlá-los. É fato que há normas que mantêm o bom andamento social, por isso, temos de cumpri-las, outras; porém, não têm o mínimo sentido, são de altíssimo potencial adoecedor, mas que  orientam modos de interagir, tornando as pessoas inseguras, desorientadas e preconceituosas, escondendo-se atrás de máscaras sociais, por não corresponderem às expectativas  da família e da sociedade em geral. Desse modo, o desequilíbrio familiar, que veio do sistema cultural, retorna para a sociedade, porque famílias desequilibradas produzirão pessoas desequilibradas, que mais tarde, terão as próprias famílias também desequilibradas interagindo socialmente, sendo guiadas não só pelo modelo ideal a ser atingido, mas também por uma gama de proibições que acabam dando origem a discriminações e preconceitos, como homofobia, racismo, obesofobia, xenofobia, psicofobia, gerontofobia, etc. causadores de sofrimento, adoecimento e morte
Não há como negar que a máscara social é uma forma de trapacear a realidade. O que muitos não sabem é que ao colocá-la, uma parte de nossa mente pode estar satisfeita, mas várias outras partes vão reagir a essa mentira, porque a mente conhece a sua verdadeira identidade. Não é por acaso que o índice de pessoas com queixa de depressão, ansiedade, compulsões, dependência química, estresse, doenças psicossomáticas e outras sobe a cada dia, pois mentir para si mesmo conduz ao adoecimento. Desse ponto de vista, podemos dizer que é inútil ficarmos esgotados por termos que cumprir tantas exigências e expectativas, escondendo-nos sob máscaras, ilusões, correndo angustiados atrás de modelos que nada têm a ver conosco, para sermos amados e aceitos. Na verdade, não é preciso ficar desempenhando papéis, ou querer ser alguém que não é, pois a melhor maneira para ser saudável e feliz é aprender a expressar o que realmente sente, dizer o que de fato se quer dizer, sem que a opinião dos outros tenha  que se sobrepor à nossa vontade. 





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quarta-feira, 24 de junho de 2015

ENTREVISTA PARA DOCUMENTÁRIO - ESPM-RS


Entrevista concedida ao Documentário ¨AS DIFERENTES FORMAS DE PRECONCEITO CONTRA A COMUNIDADE LGBT¨, autoria de Luiza Buzzacaro Barcellos e Camila Oliveira para a disciplina Rádio 2, do curso de Jornalismo, da Escola Superior de Propaganda e Marketing, de Porto Alegre - ESPM-RS.


Luiza Buzzacaro Barcellos - Que tipo de dificuldades psicológicas, pessoas que não estejam de acordo com uma lógica heteronormativa, podem passar para aceitarem sua orientação sexual?

Néa Tauil - A dificuldade em aceitar a orientação sexual diferente da heterossexual depende da cultura, sendo mais difícil em sociedades mais conservadoras e mais fácil em sociedades mais liberais. Logo em sociedades conservadoras quase a totalidade da comunidade LGBT ( lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transgêneros) sofre durante o processo de aceitação porque na lógica heteronormativa há uma gama de proibições que acabam dando origem a discriminações, preconceitos e, consequentemente, homofobia, causadores de sofrimento, adoecimento e morte. É fato que vivenciar tratamentos negativos da sociedade relaciona-se com um maior número de problemas psicológicos, pois crescer numa cultura que frequentemente transmite mitos e esteriótipos, por vezes muitos negativos, são assimilados por todos nós, e isso quando choca com a identidade homossexual, pode corromper fortemente o sentido de valor pessoal e de autoestima, por exemplo: ¨eu não presto enquanto homossexual¨, ¨não interesso a ninguém¨, ¨vou beber para esquecer¨, etc. Assim, essas atitudes e sentimentos negativos, internalizados no homossexual, podem estar relacionadas com depressão, alcoolismo, abuso de substância, ansiedade, distúrbios alimentares, ideias suicidas e suicídio. Mas não podemos generalizar, pois há muitas pessoas da comunidade LGBT que têm vidas extremamente felizes, saudáveis e produtivas. 

Luiza Buzzacaro Barcellos - Ser gay ou transexual é uma opção ou a pessoa nasce assim?

Néa Tauil - Não é uma opção e nem se nasce gay ou transexual. Ninguém decide ser heterossexual, homossexual, bissexual ou transexual. Amar e desejar outra pessoa fugindo dos padrões de comportamento socialmente definidos para o homem e a mulher, não é algo que a pessoa escolhe, muito pelo contrário, quem é que em plena consciência iria optar em expressar a sua sexualidade de maneira diferente daquela que não preenche os requisitos pré- estabelecidos pela cultura a qual se está inserido? O fato é que desde pequenos somos educados a seguir rigidamente certos padrões impostos pela sociedade no que diz respeito a nossa sexualidade. Ao nascer, somos registrados e recebemos uma certidão definitiva. Há uma divisão comportamental, da qual meninos devem agir de uma maneira e meninas de outra. Esse modelo de educação acaba semeando os primeiros frutos da heteronormatividade, que por sua vez acaba limitando a liberdade do outro de viver abertamente a sua sexualidade.

Luiza Buzzacaro Barcellos - Existem processos de descobrimento e aceitação ou isso é apenas um mito?

Néa Tauil - Sim, existe processo de descobrimento e aceitação e não é fácil, pois é cercado pelas muralhas do preconceito, do pecado, do medo, do achar que ser diferente não é certo. Apesar da experiência sexual ter significados diferentes para cada indivíduo, podemos dizer que o processo de descobrimento e aceitação envolve quatro momentos: a pessoa se ¨sente¨ diferente, começa a ¨dar sentido sexual¨a essa diferença, se ¨reconhece¨ como homossexual, e ¨aceita¨ esse modo de vida. Na minha opinião, precisamos preparar adultos para aceitar e/ou conviver com o ¨diferente¨, pois a diversidade sexual é positiva para a sociedade.

Luiza Buzzacaro Barcellos - Quais as diferenças dessas questões quando a pessoa é transexual?

Néa Tauil - Não vejo diferença com relação aos processos estigmatizantes e discriminatórios para a população LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transgêneros). Porém, destaco a existência de discriminação institucional em relação à empregabilidade do referido público, em razão da orientação sexual. Em especial, quando se trata dos que mudaram de sexo - os chamados transgêneros. Há muitas pessoas capazes de assumirem papeis importantes no mercado de trabalho, mas que, em razão de sua orientação sexual, não conseguem emprego. Muitas vezes, se conseguem, não têm a mesma oportunidade de ascensão na carreira.

Luiza Buzzacaro Barcellos - Quais são os tipos de danos psicológicos que as pessoas sofrem com a violência simbólica, ou seja, o preconceito diário que essas pessoas enfrentam (a comunidade LGBT em geral)?

Néa Tauil - É o que falei anteriormente, o baixo nível de autoestima é um dos danos psicológicos que acomete quem sofre ou sofreu com os processos estigmatizantes e discriminatórios. Esse tipo de violência é uma maneira brutal de atingir a autoestima do outro e contribui para a instalação do adoecimento, pois autoestima e saúde estão diretamente relacionadas. Geralmente, muitos pacientes chegam no consultório para tratar de algum transtorno decorrente desses processos estigmatizantes e discriminatórios, como transtorno de ansiedade, entre eles: (fobia social, transtorno obsessivo compulsivo, transtorno do pânico, transtorno de estresse pós-traumático, etc) depressão, problemas de relacionamento, sentimentos negativos, distúrbio alimentar, dificuldade de concentração, automutilação, tentativa de suicídio, etc.

Luiza Buzzacaro Barcellos  - Por que é tão difícil para a sociedade em geral respeitar e aceitar a sexualidade dos homossexuais, bissexuais e transexuais?

Néa Tauil - Porque em pleno século XXI, ainda existe, no Brasil, um alto índice de analfabetismo no que se refere à sexualidade, pois a educação sexual oferecida para a população, é bastante superficial, limitada, imbuída de preconceitos, mitos e tabus. No meu blog, há um artigo intitulado ¨Analfabetismo sexual¨, ele aborda esse assunto, mostrando que a educação sexual no Brasil precisa ser repensada, pois é ignorância pensar que a heterossexualidade é a única manifestação do desejo afetivo-sexual, interpretando as demais manifestações como doenças e dignas de sanção moral. Também realizei uma pesquisa que foi publicada na Revista PSIQUE, intitulada ¨A Abordagem da sexualidade na Prática Psicoterápica¨, mostrando que distorções, mitos, preconceitos, causados principalmente por falta de conhecimento, pode prejudicar a atuação do profissional da saúde para abordar, examinar e lidar com a sexualidade do paciente. Na verdade, o conhecimento mais profundo de mitos, tabus e da realidade acerca de nossa própria sexualidade pode contribuir para a diminuição de posturas inadequadas diante do tema.

Luiza Buzzacaro Barcellos - Há algum fator presente na infância ou na adolescência, por exemplo, que influencie a orientação sexual do indivíduo?

Néa Tauil - Sim, há muitos fatores que influenciam a orientação sexual do indivíduo. Na identificação do sexo ao nascer, só se considera a genitália externa (macho ou fêmea). Contrariando o que muitos pensam, a orientação sexual não se define apenas por traços característicos dos aspectos biológicos, pois ela é o modo como as pessoas sentem atração física e/ou afetiva por outras pessoas. A orientação sexual deve ser pensada como resultado de uma complexa interação de fatores biológicos, psicológicos, sociais e culturais. Por isso, os órgãos sexuais  característicos de cada gênero não garante que iremos nos tornar psicologicamente meninas e mulheres, meninos e homens. O fato é que independente da presença dos órgãos sexuais masculinos ou femininos, o que vai determinar se a pessoa se sente homem ou mulher é o seu psiquismo, e não a sua genitália.

Luiza Buzzacaro Barcellos - Eventualmente, existem preconceitos dentro da própria comunidade LGBT. Por que isso acontece?

Néa Tauil - Sim, existe. De acordo com a cultura da qual estamos inseridos, em proporções maiores ou menores, todos nós, durante nosso desenvolvimento infantil, aprendemos a acreditar em mitos e esteriótipos que são repassados de geração em geração. Penso que essa é a razão pela qual a humanidade é cheia de preconceitos e a comunidade LGBT é uma grande massa que atua, consome, pensa, trabalha e que não é diferente de nenhum outro cidadão. Logo, no meio LGBT há muitas pessoas preconceituosas que super valorizam alguns esteriótipos e outras não. Por exemplo: Se você é gay, você tem que ser másculo. Se for lésbica, você tem que ser feminina. Se você tem essa característica, é respeitado, desejado, além de uma maior facilidade de ter amigos. Entretanto, se for o gay afeminado e se a lésbica for máscula, a rejeição já começa no próprio meio.Claro que um grupo que sofre tanto com o preconceito deveria ser mais tolerante e menos ¨rotulista¨, mas como disse anteriormente, independente da orientação sexual, a humanidade é cheia de preconceitos. 










quinta-feira, 21 de maio de 2015

A FAMÍLIA PODE SER AMIGA OU INIMIGA

Por Néa Tauil

Ao contrário do que se pode pensar, o ambiente familiar nem sempre é um local harmonioso, afetivo, seguro, confiante e protetivo, pois a prática de violência (seja, física, sexual ou psicológica), contra crianças, por parte do pai, da mãe ou cuidadores, acontece diariamente em muitos lares. 


Para melhor compreensão desses três tipos de abusos, faz-se necessário esclarecer o que vem a ser cada um deles. Resumidamente, começaremos pelo abuso psicológico, que é um tipo de violência praticada, principalmente, contra crianças. Essa forma de violência se manifesta através de xingamento, desvalorização, humilhação, ameaça, hostilização, desrespeito, ridicularização, indiferença, discriminação, rejeição, críticas, culpabilização, etc. Já o abuso físico envolve os danos no corpo causados por murros, pontapés, queimaduras, apertões, beliscões, espancamento, ou outros tipos de ações agressivas contra a criança. Quanto ao sexual, compreende a violação dos direitos sexuais, que se traduz pelo abuso e/ou exploração do corpo e da sexualidade da criança, ao envolver e despertar meninas e meninos para o sexo precocemente, de maneira deturpada e traumática.

Pode-se afirmar que qualquer tipo de abuso, na infância, exerce um impacto negativo sobre a criança. Os efeitos dessas experiências violentas e traumáticas podem manifestar-se de várias formas e em qualquer idade. Sendo que em alguns casos, os danos físicos e psicológicos podem durar por toda vida da pessoa. Isso evidencia que uma criança não resolve, conscientemente, que irá crescer e ser um delinquente (que lesa outras pessoas), um pedófilo, um dependente químico descontrolado e autodestrutivo, uma vítima que se deixa abusar pelos outros, um assassino em massa, uma prostituta ou uma pessoa perturbada por transtornos de ansiedade, depressão, impulsividade, culpa, insegurança, vergonha, pensamentos suicida, dificuldade de socialização, etc.

É indiscutível que a responsabilidade pela educação da criança é dos pais ou pessoas responsáveis, bem como a definição de limites e toda a orientação para a formação do caráter e o aprendizado sobre interação social. Felizmente, a sociedade vem discutindo a forma como esses limites são estabelecidos, já que a criança vai absorver aquilo que é transmitido através do comportamento, dos sentimentos e atitudes dos pais, no dia a dia, para depois repetir na vida adulta e ainda transmitir para futuras gerações. Muito já se foi dito sobre o fato de os pais serem os modelos para os filhos adolescentes, porém, investigações mais atuais confirmam que os pais são modelos para os filhos, desde o momento do nascimento. Sabe-se que os primeiros canais que as crianças têm para aprender é a observação, elas observam cuidadosamente o que os adultos fazem e essa aprendizagem por imitação (baseada na conexão social com outro) começa praticamente ao nascer.

Na realidade, o tipo de educação familiar que uma pessoa recebe, na infância, é fator determinante no comportamento e, consequentemente, na qualidade de vida dela, quando adulta. De fato, uma criança que nasce, cresce e desenvolve-se num ambiente onde ela é respeitada, tratada com amor, consideração e orientação honesta para viver no mundo, tem tendência em sentir prazer na vida e, não a necessidade de matar, enganar, mentir, ferir a si mesma e os outros, simplesmente porque não terá como tarefa inconsciente reprimir experiências de crueldade. Porém, uma criança tratada com agressão, castigo, humilhação, manipulação, negligência das suas necessidades, que foi enganada, explorada, inclusive sexualmente, etc. terá como tarefa inconsciente reprimir as experiências traumáticas geradas pelos abusos, que embora permaneçam inconscientes, vão encontrar expressão em seus atos destrutivos contra outras pessoas ou contra a si mesma.
Algumas evidências mostram que a maior parte das pessoas não têm consciência do que lhes foi feito na infância, além disso não sabem que são continuamente afetadas na vida adulta pelas experiências vivenciadas, principalmente na infância. As experiências, tanto de ternura como de crueldade vividas na relação com mãe, pai ou pessoas responsáveis por nossa educação, deixam gravações psíquicas e emocionais registradas para sempre em nosso inconsciente. Esses registros são as matrizes que irão marcar nosso mundo emocional e determinar nossas relações pessoais, casamentos, educação dos filhos e nosso futuro como um todo, pois influenciam nossa forma de pensar, de sentir e de agir, porém, escapam da consciência, ou melhor, não teremos consciência disso na vida adulta.

Depois do que foi visto, pode-se constatar que as experiências traumáticas vividas na infância, embora permaneçam inconscientes, mostram a sua influência na idade adulta. Portanto, não podemos continuar sendo perturbados pelo passado infantil deixando as experiências traumáticas enterradas na mente inconsciente. O que fazer? Uma ação possível é a busca de tratamento psicológico, pois para tomar consciência dos abusos e dar sentido a essas experiências é importante falar e ser ouvido por outra pessoa. Além disso, para rever as condições do ambiente onde cresceu, repensar os modelos parentais e como exerciam suas funções, a forma como foi educado, as crenças em que acreditou, reviver e dar-se conta das emoções e dos sentimentos que foram negados e rejeitados, enfim, reelaborar as experiências traumáticas e reorganizar o mundo interno só é possível com a presença do outro - psicólogo ou psicanalista - que possibilitará o processo terapêutico.


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