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quinta-feira, 21 de maio de 2015

A FAMÍLIA PODE SER AMIGA OU INIMIGA

Por Néa Tauil

Ao contrário do que se pode pensar, o ambiente familiar nem sempre é um local harmonioso, afetivo, seguro, confiante e protetivo, pois a prática de violência (seja, física, sexual ou psicológica), contra crianças, por parte do pai, da mãe ou cuidadores, acontece diariamente em muitos lares. 


Para melhor compreensão desses três tipos de abusos, faz-se necessário esclarecer o que vem a ser cada um deles. Resumidamente, começaremos pelo abuso psicológico, que é um tipo de violência praticada, principalmente, contra crianças. Essa forma de violência se manifesta através de xingamento, desvalorização, humilhação, ameaça, hostilização, desrespeito, ridicularização, indiferença, discriminação, rejeição, críticas, culpabilização, etc. Já o abuso físico envolve os danos no corpo causados por murros, pontapés, queimaduras, apertões, beliscões, espancamento, ou outros tipos de ações agressivas contra a criança. Quanto ao sexual, compreende a violação dos direitos sexuais, que se traduz pelo abuso e/ou exploração do corpo e da sexualidade da criança, ao envolver e despertar meninas e meninos para o sexo precocemente, de maneira deturpada e traumática.

Pode-se afirmar que qualquer tipo de abuso, na infância, exerce um impacto negativo sobre a criança. Os efeitos dessas experiências violentas e traumáticas podem manifestar-se de várias formas e em qualquer idade. Sendo que em alguns casos, os danos físicos e psicológicos podem durar por toda vida da pessoa. Isso evidencia que uma criança não resolve, conscientemente, que irá crescer e ser um delinquente (que lesa outras pessoas), um pedófilo, um dependente químico descontrolado e autodestrutivo, uma vítima que se deixa abusar pelos outros, um assassino em massa, uma prostituta ou uma pessoa perturbada por transtornos de ansiedade, depressão, impulsividade, culpa, insegurança, vergonha, pensamentos suicida, dificuldade de socialização, etc.

É indiscutível que a responsabilidade pela educação da criança é dos pais ou pessoas responsáveis, bem como a definição de limites e toda a orientação para a formação do caráter e o aprendizado sobre interação social. Felizmente, a sociedade vem discutindo a forma como esses limites são estabelecidos, já que a criança vai absorver aquilo que é transmitido através do comportamento, dos sentimentos e atitudes dos pais, no dia a dia, para depois repetir na vida adulta e ainda transmitir para futuras gerações. Muito já se foi dito sobre o fato de os pais serem os modelos para os filhos adolescentes, porém, investigações mais atuais confirmam que os pais são modelos para os filhos, desde o momento do nascimento. Sabe-se que os primeiros canais que as crianças têm para aprender é a observação, elas observam cuidadosamente o que os adultos fazem e essa aprendizagem por imitação (baseada na conexão social com outro) começa praticamente ao nascer.

Na realidade, o tipo de educação familiar que uma pessoa recebe, na infância, é fator determinante no comportamento e, consequentemente, na qualidade de vida dela, quando adulta. De fato, uma criança que nasce, cresce e desenvolve-se num ambiente onde ela é respeitada, tratada com amor, consideração e orientação honesta para viver no mundo, tem tendência em sentir prazer na vida e, não a necessidade de matar, enganar, mentir, ferir a si mesma e os outros, simplesmente porque não terá como tarefa inconsciente reprimir experiências de crueldade. Porém, uma criança tratada com agressão, castigo, humilhação, manipulação, negligência das suas necessidades, que foi enganada, explorada, inclusive sexualmente, etc. terá como tarefa inconsciente reprimir as experiências traumáticas geradas pelos abusos, que embora permaneçam inconscientes, vão encontrar expressão em seus atos destrutivos contra outras pessoas ou contra a si mesma.
Algumas evidências mostram que a maior parte das pessoas não têm consciência do que lhes foi feito na infância, além disso não sabem que são continuamente afetadas na vida adulta pelas experiências vivenciadas, principalmente na infância. As experiências, tanto de ternura como de crueldade vividas na relação com mãe, pai ou pessoas responsáveis por nossa educação, deixam gravações psíquicas e emocionais registradas para sempre em nosso inconsciente. Esses registros são as matrizes que irão marcar nosso mundo emocional e determinar nossas relações pessoais, casamentos, educação dos filhos e nosso futuro como um todo, pois influenciam nossa forma de pensar, de sentir e de agir, porém, escapam da consciência, ou melhor, não teremos consciência disso na vida adulta.

Depois do que foi visto, pode-se constatar que as experiências traumáticas vividas na infância, embora permaneçam inconscientes, mostram a sua influência na idade adulta. Portanto, não podemos continuar sendo perturbados pelo passado infantil deixando as experiências traumáticas enterradas na mente inconsciente. O que fazer? Uma ação possível é a busca de tratamento psicológico, pois para tomar consciência dos abusos e dar sentido a essas experiências é importante falar e ser ouvido por outra pessoa. Além disso, para rever as condições do ambiente onde cresceu, repensar os modelos parentais e como exerciam suas funções, a forma como foi educado, as crenças em que acreditou, reviver e dar-se conta das emoções e dos sentimentos que foram negados e rejeitados, enfim, reelaborar as experiências traumáticas e reorganizar o mundo interno só é possível com a presença do outro - psicólogo ou psicanalista - que possibilitará o processo terapêutico.


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