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sábado, 22 de agosto de 2015

MEU FILHO SERÁ HETERO, HOMO OU BISSEXUAL?

Por Néa Tauil



Do ponto de vista da sexualidade, a orientação sexual é um dos aspectos mais polêmicos, pois além de ser considerada por muitas pessoas como doença ou opção, quando o objeto de amor e desejo sexual é diferente da heterossexualidade, ao mesmo tempo, é alvo de julgamentos rápidos, baseados apenas pela aparência. De fato, as disparidades sociais são inevitáveis, porém não justifica, por falta de conhecimento, considerar a orientação sexual diferente da heterossexual como doença ou opção e ainda pensar que é possível determinar a  orientação sexual dos outros com base em aparências.


Afinal, do que se trata orientação sexual? A orientação sexual é um dos aspectos da sexualidade  que aponta para o modo como as pessoas sentem atração física e/ ou afetiva por outras pessoas. Nota-se que  a atração não diz respeito apenas ao aspecto sexual, mas também envolve questões sentimentais, já que a sexualidade não está relacionada apenas ao coito, mas também ao afeto, autoestima, autoconfiança, respeito, saúde, etc. É por isso que o termo adequado para nos referir às categorias da orientação sexual é homoafetividade, heteroafetividade, biafetivo , ao invés de homossexualidade, heterossexualidade e  bissexualidade.

O fato é que a orientação sexual, além da heterossexual ( atração afetivo-sexual pelo sexo oposto) abrange outras categorias na expressão do desejo afetivo-sexual, como é o caso da homossexualidade ( atração afetivo-sexual pelo mesmo sexo), bissexualidade ( atração afetivo-sexual por pessoas de ambos os sexos, feminino e masculino). Podemos observar que a manifestação da sexualidade não é fixa e certamente  terá outros significados de acordo com as constantes evoluções das sociedades e das culturas, que interagem na construção da identidade e subjetividade individual. Inclusive, atualmente, alguns especialistas consideram como categorias da orientação sexual, a assexualidade e o pansexualismo. 

Na assexualidade, os indivíduos  não sentem atração sexual, seja pelo sexo oposto ou pelo sexo igual. Têm desejos por relacionamentos românticos, mas não querem que essas relações incluem atividade sexual. Já a pansexualidade,  é caracterizada pela atração sexual, romântica e/ou emocional, independentemente da identidade de gênero do outro. Inclui, portanto, pessoas que não se encaixam na binária de gênero homem/mulher. Seja como for, a verdade é que o objeto de amor e desejo sexual pode ser heterossexual, homossexual, bissexual e outros. 


Com base no que foi dito,  fica evidente que a orientação sexual não é uma escolha, ninguém decide ser heterossexual, homossexual ou bissexual, por isso que amar e desejar sexualmente outra pessoa, fugindo dos padrões de comportamento socialmente definidos para o homem e a mulher, não é algo que a pessoa escolhe, muito pelo contrário, quem é que em plena consciência iria optar em expressar a sua sexualidade de maneira diferente daquela que não preenche os requisitos pré-estabelecidos pela cultura a qual se está inserido? Dessa forma, o termo orientação sexual é considerado mais apropriado do que opção sexual ou preferência sexual, porque a opção indica que a pessoa teria escolhido a sua forma de desejo.  Por falta de conhecimento sobre sexualidade, muitos de nós colocamos opção sexual no lugar de orientação sexual, por isso,  podem até nos confundir, mas não nos dá o direito de tentar adivinhar se alguém dorme com homens ou com mulheres, mas mesmo assim, muitos não admitem a derrota em qualquer tentativa de prever a orientação sexual dos outros fazendo julgamentos rápidos com base em aparências. A realidade nos mostra que não podemos afirmar nada com base em aparências, especialmente sobre a orientação sexual dos outros

Não há como negar que até mesmo psicoterapeutas experientes se equivocam na tentativa de prever qual é a orientação sexual do paciente. É grande o número de pessoas que aderem ao estereótipo de que um homem com traços afeminados é gay e uma mulher masculinizada é lésbica. É bom destacar que, homens com orientação sexual heterossexual, podem estar identificados com os traços que caracterizam o gênero feminino, tornando-os afeminados,  mas eles se sentem masculino, desejam e amam mulheres. A recíproca também vale para o sexo feminino, ou seja, mulheres com orientação sexual heterossexual podem estar identificadas com os traços que caracterizam o gênero masculino, serem masculinizadas, não terem o corpo feminino perfeito, mas se sentirem mulher e desejar homens como objeto de amor e desejo sexual. O mesmo ocorre com homens e mulheres com orientação sexual homossexual. Isso significa que homens homossexuais podem estar identificados com traços que caracterizam o gênero masculino, serem másculos, viris, mas desejam se relacionar afetiva e sexualmente com outro homem. Com mulheres lésbicas é assim também. Sentem-se mulheres, comportam-se de maneira feminina, mas desejam se relacionar afetiva e sexualmente com outra mulher. 

O importante a registrar é que as pessoas podem ser ou se comportar  de diferentes maneiras, por isso mesmo devem ser respeitadas e não julgadas. Considere o seguinte exemplo, quando procuramos um profissional da área da saúde para nos ajudar a aliviar uma dor física ou psíquica, não perguntamos sobre sua orientação   sexual, porque quando a dor física ou psíquica surge, gerando sofrimento, não importa qual é a expressão da sexualidade do nosso médico, psicólogo, dentista, psiquiatra, nutricionista, fisioterapeuta, enfermeiro etc., o que importa nessa hora, é o restabelecimento da nossa saúde, e não o nosso preconceito. Podemos até ser homofóbicos e o nosso "doutor" pode ser um homossexual e nem cogitamos essa possibilidade porque o nosso "doutor" não apresenta traços afeminados.  O mesmo pode acontecer na igreja que frequentamos em busca de alívio e consolo.  Normalmente nem se questiona a orientação sexual do padre ou do pastor que tanto confiamos, mas as manchetes dos jornais mostram que eles também possuem sexualidade, portanto sentem atração física e/ ou afetiva por outras pessoas. A realidade é que preconceitos, estereótipos negativos e discriminação estão profundamente arraigados em nosso sistema de valores e padrões de comportamento e nem percebemos o quanto nos enganamos, achando que podemos diagnosticar a vida sexual da outra pessoa com base em aparências.

Contrariando o que muitos pensam, a orientação sexual não se define apenas por traços característicos dos aspectos biológicos. Ela deve ser pensada como o resultado de uma complexa interação de fatores biológicos, psicológicos, sociais e culturais. Os órgãos sexuais característicos de cada gênero não garante que iremos nos tornar psicologicamente meninas e mulheres, meninos e homens. O fato é que independente da presença dos órgãos sexuais masculinos ou femininos, o que vai determinar se a pessoa se sente homem ou mulher é o seu psiquismo e não a sua genitália. 

Depois de tudo que foi visto, pode-se constatar que a orientação sexual é uma realidade que precisa ser compreendida e aceita para que possamos deixar de nos enganar e julgar com base em aparências, acreditando que a única expressão da sexualidade que existe é a heterossexual e as outras formas de expressão são doenças. Na verdade, aqueles que não respeitam a diversidade na manifestação da sexualidade e ainda se acham no direito de condenar pessoas por causa de sua forma de viver ou de sua condição que difere da heterossexualidade, são pessoas em que suas mentes estão presas a um sistema de falsas crendices, preconceitos e tabus, pois é ignorância pensar que a heterossexualidade é a única manifestação do desejo afetivo-sexual, interpretando as demais manifestações como doenças e dignas de sanção moral. É importante dissociar a orientação sexual de doença, porque se o homossexual for considerado um doente pela forma como expressa a sua sexualidade, o heterossexual, o bissexual, etc também devem ser, já que todas fazem parte das categorias da orientação sexual e, como dito anteriormente, a orientação sexual é apenas o modo como as pessoas sentem atração física e/ou afetiva por outras  pessoas. Em última análise, como podemos observar, a orientação sexual exige determinado objeto para a sua plena satisfação sexual, romântica e/ou emocional, portanto o relacionamento heteroafetivo, homoafetivo, biafetivo, etc são apenas maneiras diferentes e não erradas de vivenciar a vida amorosa e sexual. Cabe, então, a cada um de nós refletir e questionar a própria sexualidade e não a dos outros, pois esse é o caminho para desconstrução de preconceitos, mitos e tabus que só servem para conduzir  à culpa, ao castigo, à expiação, às histórias de crime e dor. 


Todos os direitos reservados a Julcinéa Maria Tauil (Néa Tauil)
Psicoterapia Beneficia as Pessoas- http://psicologaneatauil.blogspot.com