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domingo, 27 de setembro de 2015

BULLYING NA PRÓPRIA FAMÍLIA

Por Néa Tauil

Muito se tem falado em Bullying atualmente, principalmente, no que diz respeito a sua incidência nas escolas. Já no que se refere à sua ocorrência, na família, ainda é  pouco discutido.  

É inegável que  o Bullying - por parte dos pais contra  crianças e adolescentes - é uma prática bastante comum, embora não se fale tanto nisso. Mas é um assunto que merece atenção especial, porque as evidências mostram que a educação familiar recebida por uma pessoa, na infância, é fator determinante no comportamento e, consequentemente, na qualidade de vida dela, quando adulta. 

Por definiçāo, Bullying é  um anglicismo utilizado para descrever atos de violência física ( danos no corpo causados por murros, pontapés, queimaduras, apertões, beliscões,  espancamento, etc.) ou psicológica ( xingamento, desvalorização, humilhação, ameaça, hostilização, desrespeito, ridicularização, indiferença, discriminação, rejeição, críticas, culpabilização, etc.), intencionais e repetidos, praticados por um indivíduo ou grupo de indivíduos, causando dor e angústia e sendo executadas dentro de uma relação desigual de poder. Especialistas em violência apontam o Bullying como uma das formas de abuso que mais cresce no mundo, uma vez que pode acontecer em qualquer contexto social, como escolas, universidades, em local de trabalho, famílias, etc.

É possível afirmar que o Bullying é recriado a cada geração e, infelizmente, muitas crianças /adolescentes, ao invés, de serem protegidos, respeitados e tratados com amor pelos seus pais ou cuidadores, são repetidamente ridicularizados, simplesmente, por realizarem tarefas com lentidão, por estarem acima do peso, por rirem alto ou brincarem demais, por terem pouco cabelo, não comerem todos os legumes do prato. Caçoam quando demonstram carência, medo ou chora. Repreendem com gritos, quando perguntam demais, ou colocam a mão nas partes íntimas, não escovam os dentes com eficiência, etc. Espancam quando não obedecem, deixam cair e quebrar um pote de açúcar, derrubam sorvete no banco do carro, ou puxam brutalmente pelos braços quando atrasam. Corrigem ou exortam os filhos em público, porque acreditam que irão aprender mais rápido a lição do que é certo ou errado, bem e mal, dentre outros.Como se vê, poderia facilmente relacionar centenas de situações agressivas que instalam uma particular ou generalizada sensação de incompetência pessoal a quem escuta apelidos, chacotas, "tiradas de sarro" puxões, pontapés, espancamentos, etc. 

Mas quais são os efeitos do Bullying?
Os efeitos podem manifestar-se de várias formas, pois a criança /adolescente que sofre  Bullying para que se comporte de uma determinada maneira, tende a responder ao cenário de violência em que vive,  buscando fontes de satisfação e prazer compensatórios, substituindo o afeto por comida, por jogos, por drogas, sexo compulsivo,  etc. Podendo também criar estratégias, como: passar a evitar toda e qualquer situação que possa acarretar uma agressão, esconder seus sentimentos, desviar-se de relacionamentos, se isolar, se autopunir. Pode se tornar uma pessoa vitimada em todos os relacionamentos que estabelece, com medo de ser sempre agredida, fazendo de tudo para agradar ao outro ou até mesmo repetindo o padrão de se submeter a agressões, como também podendo se tornar agressora, etc. O Bullying é uma forma de abuso que atinge o autoconceito, a autoimagem e a autoestima de uma pessoa, cuja incidência pode minar a autonomia, a iniciativa,  a coragem e a segurança, sendo que em alguns casos, os danos físicos e psicológicos podem durar por toda vida

Com frequência, pessoas chegam ao consultório com um sentimento desagradável sobre si mesma, uma noção generalizada de falta de valor pessoal, desconhecendo o seu próprio potencial e domínio  para sobrepor qualquer  erro ou fracasso, carregando na vida adulta a crença dolorosa de que é errada, inadequada, que não é apta, vivendo paralisada por medo de ser ridicularizada, além de ser uma presa fácil de ser manipulada. No decorrer do processo terapêutico, percebe- se que a causa foi o Bullying vivido na família. Também é frequente  receber pacientes para tratar de algum transtorno decorrente do Bullying familiar, como fobia social, transtorno de ansiedade, transtorno obsessivo compulsivo e transtorno do pânico, transtornos alimentares, problemas de relacionamento e até mesmo agressividade, sentimentos negativos, automutilação, dependência química, depressão,  estresse, tentativa de suicídio e outros.

Depois do que foi visto, é possível constatar  que as ocorrências do Bullying, na maioria das vezes, acontecem inicialmente na própria família. E como se pode perceber, essa prática de violência facilita o processo de adoecimento, além de dificultar o convívio familiar e, consequentemente, em sociedade. Por isso, esse conhecimento interessa a cada um de nós, independente do que façamos e, se for bastante disseminado, poderá conduzir a mudanças fundamentais em nossa sociedade e, acima de tudo, conseguir interromper a escalada cega e "legitimada" do Bullying como forma de educar.

Todos os direitos reservados a Julcinéa MariaTauil (Néa Tauil)
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