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sábado, 26 de dezembro de 2015

MENOS REMÉDIO, MAIS PSICOTERAPIA

Por Néa Tauil



Não se pode negar que a vida moderna tem sido tratada com comprimidos e, cada vez mais, pessoas buscam desmedidamente receitas rápidas para seus problemas não resolvidos, como se fosse possível resolver com comprimidos todos os problemas vivenciais e emocionais. Ou seja, estamos vivendo na era da patologização da vida. Por exemplo: a tristeza  virou uma doença, sentir dor pela morte de alguém querido passou a ser patológico, bem como tremer quando se fala em público pela primeira vez, etc. Não é por acaso que o Brasil é um dos países em que essa patologização da vida tem sido mais intensa e extensa, despontando nas estatísticas como um dos maiores consumidores de substâncias psicoativas legais. 

O que alguns profissionais da saúde mental pensam sobre o assunto?

Allen Frances, em seu livro Saving Normal (inédito no Brasil), faz uma autocrítica e questiona o fato de a principal referência acadêmica da psiquiatria contribuir para a crescente medicalização da vida.
Em uma entrevista concedida ao jornal El País diz:¨a cada semana recebo e-mails de pais cujos filhos foram diagnosticados com um transtorno mental e estão desesperados por causa do preconceito que esse rótulo acarreta. É muito fácil fazer um diagnóstico errôneo, mas muito difícil reverter os danos que isso causa. Tanto no social como pelos efeitos adversos que o tratamento pode ter. Felizmente, está crescendo uma corrente crítica em relação a essas práticas. O próximo passo é conscientizar as pessoas de que remédio demais faz mal para a saúde. Também diz que graças àqueles que lhes permitiram fazer publicidade de seus produtos, os laboratórios estão enganando o público, fazendo acreditar que os problemas se resolvem com comprimidos. Mas não é assim. Os fármacos são necessários e muito úteis  em transtornos mentais severos e persistentes, que provocam uma grande incapacidade. Mas não ajudam nos problemas cotidianos, pelo contrário, o excesso de medicação causa mais danos que benefícios. Não existe tratamento mágico contra o mal-estar. Estamos transformando os problemas diários em transtornos mentais e tratando-os com comprimidos. Parte do problema é que o sistema de diagnóstico é muito frouxo. Mas o principal problema é que a indústria farmacêutica vende doenças e tenta convencer indivíduos de que precisam de remédios. Eles gastam bilhões de dólares em publicidade enganosa para vender doenças psiquiátricas e empurrar medicamentos". Vale lembrar que Allen Frances foi dirigente durante anos do Manual Diagnóstico e Estatístico (DSM), documento que define e descreve as diferentes doenças mentais.
                                                                                            
Já o médico psiquiatra e psicanlista Jorge Forbes, em seu artigo intitulado: ¨ Está todo mundo deprimido¨, diz que ¨se em uma reunião pudéssemos fazer raios- X das bolsas e dos bolsos, encontraríamos, entre os gêneros de primeira portabilidade, comprimidos de antidepressivos. O que antes tinha emprego discreto, hoje virou conversa de salão. Discute-se qual medicamento cada um toma, como reagiu, há quanto tempo, se o genérico substitui bem o oficial e por aí vai. E se a fala corre solta, sem o comedimento anterior, é porque uma forte propaganda convenceu muita gente de que a depressão é uma doença como outra qualquer, como quebrar o braço em um acidente ou contrair malária. Essa propaganda de fortes coloridos interesseiros da indústria farmacêutica, associada a uma medicina que se orgulha em ser baseada em evidências – aquela em que o médico não dá um passo sem pedir um monte de exames – veiculou a ideia de que você não tem nada a ver com a sua depressão, que os sentimentos são cientificamente mensuráveis e, em decorrência, controláveis".

Nessa linha de pensamento, a psicóloga e psicanalista  Alice Miller, em seu livro A verdade Liberta, pg.10, "diz que infelizmente muitos médicos não entendem a linguagem dos sintomas dos seus pacientes, pois não conseguem lidar abertamente com as próprias emoções e raramente tem acesso a própria infância. Essa falta de entendimento gera um sentimento de impotência que precisa ser repelido o mais depressa possível. Como repelimos esses sentimentos? Entre outras formas, quando usamos meios para calar esses sintomas, para não nos sentirmos impotentes, mas poderosos. E como calamos os sintomas? Existem muitos meios, sobretudo remédios".

Diante dessa realidade, constata-se que  a busca desenfreada pela medicalização se dá principalmente pela falta de esclarecimento para a população sobre o tratamento psicológico, por isso a procura por  um médico clínico ou especialista é muito maior do que a busca por psicólogos. Disto se conclui, que por desconhecimento do que seja psicoterapia, há muita gente sendo medicada com ansiolíticos, antidepressivos, remédio para dormir e outros, sem um resultado eficaz. 

É importante saber que psicoterapia é um tratamento psicológico em que a pessoa tem a chance de entrar em contato com o que realmente lhe está fazendo mal, podendo se re-situar  dentro de si mesma, encurtando a distância de seu próprio eu, desenvolvendo e explorando suas potencialidades criativas, intelectuais e emocionais, lidando e superando traumas infantis, abrindo-se para uma nova dimensão humana e trilhando confiante o caminho da maturidade através do resgate da autoestima. Isso significa que  a pessoa pode se libertar do sofrimento, ao invés  de permanecer sofrendo, apesar de medicada. Como vimos, não existe pílula mágica que resolva problemas vivenciais e emocionais. Então, é aconselhável que se tenha uma atitude mais precavida para que não se torne vítima de remédios receitados inadequadamente.




REFERÊNCIAS

- Jornal EL PAÍS - Sociedade 
Entrevista Allen Frances 
¨Transformamos problemas cotidianos em transtornos mentais¨
M.P.O. 27 de setembro de 2014

- www.jorgeforbes.com.br - artigos
¨Está todo mundo deprimido¨
26 de outubro de 2013

- Miller, Alice. A Verdade Liberta. São Paulo:Martins Fontes. 2004



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