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domingo, 28 de agosto de 2016

DEPENDÊNCIA AFETIVA NA RELAÇÃO AMOROSA


Por Néa Tauil





Do ponto de vista da saúde mental, saudável é amar e ser amado na medida certa, porque tanto amor quanto apego em excesso pode por o relacionamento em risco. Mas, de fato, reconhecer o limite  entre o amor e a dependência afetiva nem sempre é fácil, pois aprendemos a nos enganar com a ideia de fusão embutida no amor romântico, predominante no imaginário coletivo. Ou seja, aquele amor em que cada um entra com uma metade, tornando-se ¨duas metades de uma só laranja¨.


A questão, entretanto, é: relacionamentos saudáveis são feitos de dois inteiros, não de duas metades e amor é diferente de dependência afetiva. Amor significa respeito, gentileza, troca (dar e receber)... Dependência afetiva é uma necessidade excessiva de ser cuidado, que leva a um comportamento submisso, aderente e de temores a separação. Ela pode sufocar a união, deixá-la sem ar, sem espaço para que apareça a singularidade de cada parceiro. Porém, confundir amor com dependência afetiva é algo bastante comum, pois há muitos adultos que não amadurecem emocionalmente e permanecem como crianças num relacionamento amoroso, chamando de amor, o que na verdade é uma necessidade. 

Em geral,  a pessoa  dependente de afeto necessita da aprovação, aceitação e reconhecimento do outro, para lidar com as situações da vida, já que não acredita no seu próprio valor, no seu poder de tomar decisões e fazer escolhas. A percepção de si mesma é muito frágil. Sente-se incapaz de agir adequadamente, sem o auxílio de outras pessoas, por isso, recorre frequentemente aos outros para ser orientada, ajudada e direcionada.Não acredita na própria capacidade, apresenta baixa tolerância à frustração, pouca capacidade para o sofrimento e ilusão de permanência. Associadas a essas dificuldades, também são apresentadas vulnerabilidade ao sofrimento, o medo do abandono, a baixa autoestima e os problemas  de autoconceito (WALTER RISO, 2011). Tende a se anular por um lado e, por outro, a cobrar em demasia. Há casos em que a dependência é tão intensa e as crises de abstinência tão fortes que chega ao ponto de aprisionar o(a) parceiro(a), ou de desejar que este(a) adivinhe suas necessidades, sentimentos, dificuldades, e tende a atribui-lo(a)  a responsabilidade do seu próprio bem-estar. Muitas vezes, depender de afeto conduz o dependente a aceitar qualquer tipo de relação, por medo de perder a outra pessoa, de ser abandonado e, muitas vezes, tolera todos os tipos de abusos - desde o físico, psicológico e até o sexual.


Estudos comprovam que a tendência para a pessoa desenvolver dependência afetiva, na vida adulta, está relacionada tanto à falta quanto ao excesso na demonstração de amor, atenção e carinho por parte dos  pais/cuidadores. Ou seja, se as primeiras experiências afetivas das crianças  forem frustrantes, insatisfatórias e frias, vividas na relação com pais negligentes, ausentes ou aqueles excessivamente rígidos e incapazes de demonstrar afeto, levando as crianças a não se sentirem amadas, queridas e importantes - na vida adulta - normalmente irão sentir a necessidade, quase que vital, de depender do amor de outra pessoa, já que não viveram isso em sua fase mais precoce. Por outro lado, se  os pais forem superprotetores, sempre cobrindo os filhos de cuidados excessivos, tentando poupá-los de toda e qualquer frustração, sofrimento, angústia, dificuldades, problemas, isso, de certa forma, promoverá um descrédito na capacidade deles, além de desenvolver uma inabilidade para solucionar seus próprios problemas, gerada pelo medo de errar, em um processo crescente, que culmina na incapacidade de gerenciar a própria vida quando adultos, pois passam de crianças mimadas a adultos frustrados, que não conseguem abandonar o modelo infantil ao se relacionar com a realidade, andando sobre ilusões, sem autonomia e, consequentemente, sem independência.

De forma mais específica, pode-se dizer que por trás de toda dependência há medo e, mais ainda, algum tipo de incapacidade. Por exemplo: se sou incapaz de tomar conta de mim mesmo, terei medo de ficar só e me apegarei às fontes de segurança disponíveis representadas por diferentes pessoas (WALTER RISO, 2011). Na dependência afetiva, essas pessoas ou objetos têm uma única função para o dependente afetivo:  dar a sensação de segurança que precisa para suportar problemas, tensões e dificuldades pessoais ou sociais. Infelizmente, o resultado é o vício afetivo que tem as características destrutivas como  a de qualquer outra adição. Adição é o vício, e geralmente está relacionado às drogas ilícitas. Mas a adição pode também significar qualquer dependência psicológica ou compulsão, como jogo (bingo, pôquer, etc), comida, sexo, pornografia, internet, vídeo games, exercício físico, trabalho, compras, etc. A diferença entre o vício afetivo e os outros é  a de que para o mal do amor não existem campanhas divulgando prevenção ou tratamento.

Não há como negar que  certa dose de dependência amorosa é comum e, às vezes, romântica, mas os amantes precisam ter muito cuidado com o exagero, pois depender da pessoa que se ama é uma maneira de se enterrar em vida, um ato de automutilação psicológica em que o amor próprio, o autorrespeito e a nossa essência são oferecidos e presenteados irracionalmente (WALTER RISO, 2011). Então, o que fazer para superar o ciclo vicioso da dependência afetiva? Uma ação possível é a busca de tratamento psicológico para  investir em autoconhecimento, já que conhecer a si próprio, aumenta a autoestima, que por sua vez, faz a pessoa se sentir mais segura e confiante para viver cada vez melhor, com independência, autonomia e condições para respeitar e valorizar a individualidade tanto do outro como a própria,  pois os outros entram em nossa sintonia e repetem o que emanamos.


Todos os direitos reservados a Julcinéa Maria Tauil (Néa Tauil)
Psicoterapia Beneficia as Pessoas - http://psicologaneatauil.blogspot.com
Referência:
Riso, Walter. Amar ou Depender? Porto Alegre - RS: L&PM, 2011.